Gustavo Siqueira sobre TIP e RIP: como chegamos até aqui e o que vem a seguir
Poucos pesquisadores no Brasil acompanham a terminação intensiva a pasto com tanta profundidade quanto Gustavo Siqueira.
Desde 2005 na APTA Regional de Colina, no interior de São Paulo, o professor, que possui doutorado em Zootecnia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, forma pesquisadores no programa de pós-graduação em Ciência Animal da Unesp Campus Jaboticabal dando treinamentos, acompanhando fazendas e palestrando para produtores de diferentes perfis e regiões.
A Ponta teve a oportunidade de conversar com ele sobre onde a TIP chegou, o que ainda trava o sistema e o que vem pela frente. Essa matéria traz o que ele tem a dizer.
De onde veio a TIP e por que ela demorou para ter nome próprio
A terminação intensiva a pasto existe no Brasil há mais de vinte anos, mas passou por vários nomes ao longo desse tempo. Já foi chada de novo-semi, confinamento a pasto, confinamento expresso, entre outros. Só nos últimos anos o mercado consolidou um nome que reflete bem o que o sistema é: TIP.
A APTA Regional de Colina figura entre as primeiras instituições a gerar pesquisa científica sistematizada sobre essa tecnologia. Os estudos começaram no início dos anos 2000, no mesmo período em que surgiam projetos de TIP no Mato Grosso, ligados a grupos como o Grupo LPCD, com Arlindo Vilela, um dos incentivadores dessa tecnologia.
Por volta de 2012 e 2013, a APTA passou a trabalhar de forma mais próxima desses projetos mato-grossenses, e essa aproximação, segundo Gustavo Siqueira, trouxe muita lucidez para a pesquisa porque os desafios reais do campo passaram a orientar o que precisava ser investigado.
Durante anos, a tecnologia avançou em ritmo gradual. A aceleração veio depois, com uma combinação de fatores que mudou a pecuária brasileira de forma mais ampla e que vale entender em detalhe.
O salto produtivo que a TIP torna possível
TIP significa Terminação Intensiva a Pasto: um sistema de engorda de bovinos que combina pastagem com fornecimento de ração no cocho, o que permite aumentar de forma expressiva a quantidade de animais produzidos por hectare.
No sistema extensivo com baixa suplementação, uma área produz cerca de 2 bois por hectare por ano. Com a TIP bem manejada, esse mesmo hectare passa a trabalhar com 5 a 6 animais durante o período das águas e, somando a seca, chega-se com facilidade a 15 bois por hectare por ano. Em projetos com adubação e manejo de pastagem mais estruturado, esse número ultrapassa 20. bem manejada, esse mesmo hectare passa a trabalhar com 5 a 6 animais durante o período das águas e, somando a seca, chega-se com facilidade a 15 bois por hectare por ano. Em projetos com adubação e manejo de pastagem mais estruturado, esse número ultrapassa 20.
Gustavo Siqueira usa uma analogia simples para explicar essa transformação: é como construir um prédio de cinco andares num terreno onde antes havia uma casa térrea. O terreno é o mesmo, o que muda é a estrutura que sustenta mais produção nele. E assim como um prédio exige concreto e fundação, a TIP exige ração e infraestrutura. Não há milagre envolvido, há insumo bem aplicado.
A barreira de entrada para a TIP é relativamente baixa quando comparada ao confinamento clássico. Um corredor de alimentação, piquetes, cocho e água já permitem começar. Essa acessibilidade tornou o sistema democrático, com projetos que vão de pouquíssimos animais até unidades que chegam a abater mais de 180 mil bois por ano no mesmo modelo.
Como a China acelerou a adoção da TIP no Brasil?
O crescimento mais expressivo da TIP aconteceu nos últimos dez anos, impulsionado em grande parte pela demanda chinesa. A China passou a exigir animais mais jovens e com maior peso, criando uma obrigação de formato que o sistema extensivo tradicional simplesmente não conseguia cumprir. Entregar um boi com quatro dentes dentro do prazo exigido passou a ser requisito de mercado, e não apenas uma meta técnica.
Quem trabalhava com recria de dois anos e engorda lenta ficou fora desse mercado. O produtor que quisesse vender para a China precisava encurtar o ciclo e aumentar o peso do animal em menos tempo. A TIP oferecia exatamente essa capacidade e o mercado foi buscar o caminho mais curto.
O professor resume bem essa dinâmica: quando o mercado paga, o produtor faz. A diferença de preço entre o boi que atendia ao padrão chinês e o que não atendia era significativa o suficiente para forçar mudanças no sistema produtivo de muitas fazendas ao mesmo tempo, e foi esse estímulo externo que acelerou a adoção da tecnologia em escala.
Onde entra a RIP e qual problema ela resolve
À medida que a TIP cresceu, um problema foi ficando mais evidente. A fazenda monta a estrutura, vê o resultado, quer escalar e logo percebe que não tem reposição suficiente para rodar o sistema o ano inteiro. A terminação intensiva a pasto resolve o gargalo da engorda e cria o gargalo da recria.
RIP significa Recria Intensiva a Pasto. O sistema encurta o tempo de recria de dois anos para seis, sete ou oito meses, produzindo animais mais rápido para abastecer a terminação.
Foi para responder a esse problema que a RIP ganhou força. Mais pesada e tecnificada do que a recria convencional, ela exige maior aporte de suplementação e manejo, mas permite comprimir o tempo de recria e chegar à terminação com um animal em condição superior. Combinada com TIP ou confinamento, a RIP tornou viável escalar esse modelo sem depender exclusivamente da estação das águas.
A recria continua sendo o gargalo da TIP e da RIP
O gargalo, no entanto, não desapareceu. Siqueira aponta a recria como o elo mais fraco do sistema há mais de quinze anos, e ela continua sendo. Atingir a média de ganho necessária na recria é uma atividade muito dependente das condições de pastagem e de gestão, o que torna essa fase mais difícil de padronizar do que a engorda.
Por que não se deve avaliar a RIP separada da engorda
Um erro frequente em projetos que combinam RIP e engorda é analisar os resultados das duas fases de forma separada. Um animal que passou pela recria intensiva chega à fase de terminação com um perfil diferente de um animal criado de forma extensiva por dois anos. O ganho de peso diário na fase final costuma ser menor, mas isso não significa que o resultado seja pior.
O parâmetro correto é o ciclo completo: quantas arrobas de carcaça esse animal produziu, em quanto tempo e por hectare de área utilizada, de modo que quem olha só para o ganho médio diário da fase de engorda e compara com animais de histórico diferente está usando a métrica errada para tomar a decisão certa, e essa confusão pode levar à conclusão equivocada de que a RIP não entrega o resultado esperado.
Leia também: Recria Intensiva a Pasto: acelere o GMD e termine cedo | Ponta Agro
A métrica desenvolvida: o rendimento de ganho
Ganho de carcaça é o indicador que realmente importa na engorda.
Essa limitação do ganho médio diário como único indicador levou ao desenvolvimento do conceito de rendimento de ganho, que surgiu a partir das observações feitas nos primeiros estudos de Siqueira com TIP, nos quais animais que apresentavam ganho de peso vivo mais baixo do que o esperado chegavam ao abate com carcaças gordas, bem acabadas e com rendimento acima do padrão de mercado. Algo não batia quando o único número observado era o ganho diário.
O rendimento de ganho mede a proporção entre o que o animal ganhou em carcaça e o que ganhou em peso vivo ao longo do período de engorda. Um animal que entrou com 12 arrobas e saiu com 19 ganhou 7 arrobas de carcaça.
Portanto, a pergunta relevante é saber quanto desse ganho foi convertido em músculo e gordura de verdade, e não apenas em conteúdo ruminal, água e trato gastrointestinal.
Na prática, isso muda o que o produtor precisa monitorar. A meta deixa de ser o ganho de peso vivo e passa a ser o ganho de carcaça. E a pergunta financeira mais importante deixa de ser quanto o animal ganhou por dia e passa a ser quanto custou cada arroba de carcaça ganha, porque é essa segunda conta que fecha ou não fecha a operação.
TIP e confinamento: para escolher bem, é preciso entender os dois
A pergunta mais recorrente entre produtores que ainda não se decidiram é se devem investir em TIP ou em confinamento. A resposta honesta é que depende da propriedade, da região e do momento do ano.
Em muitos casos, o produtor precisa escolher um dos dois modelos, ao menos no início.
Montar TIP e confinamento lado a lado exige gestão, capital e escala que raramente estão disponíveis para quem está começando. Com o tempo e o crescimento da operação, os dois sistemas podem se complementar bem.
Há ainda fazendas que operam TIP no período chuvoso, quando o pasto está produtivo e a lotação funciona, e migram para o confinamento na seca, quando o pasto escasseia. A RIP alimenta os dois.
O que não é verdade é que a TIP seja necessariamente mais barata do que o confinamento. O custo alimentar por animal pode ser equivalente nos dois sistemas, já que a ração fornecida por cabeça é similar. A diferença está no custo de infraestrutura, que em geral é mais baixo na TIP, e no fato de que parte da dieta vem do pasto. Mas o pasto tem custo de produção, mesmo que não chegue como boleto no final do mês. Produtores que não sabem quanto custa o quilo de matéria seca do próprio pasto estão operando com um dado fundamental faltando.
Os erros mais comuns em projetos de TIP
Gustavo Siqueira identifica quatro erros que se repetem nos projetos de TIP que o professor acompanha ao longo do Brasil. Confira a seguir!
Erro nº1: Subestimar o pasto compromete todo o sistema
O produtor aumenta a quantidade de ração, a lotação ultrapassa a capacidade de suporte e a pastagem para de se recuperar. Sem pasto de qualidade, a TIP perde o diferencial que justifica o modelo e o resultado cai abaixo do que seria em qualquer outro sistema.
Erro nº2: O custo do pasto precisa entrar na conta
O pasto não tem boleto, mas tem custo de implantação, manutenção, adubação, reforma e custo de oportunidade. Tratar a forragem como gratuita distorce o custo por arroba e esconde ineficiências que só aparecem quando a conta não fecha.
Erro nº3: RIP e engorda precisam ser avaliadas em conjunto
O GMD da fase final de um animal vindo de RIP não é o parâmetro correto. O resultado tem que ser avaliado no ciclo completo, e usar só o ganho da fase de terminação como referência leva a comparações que não fazem sentido técnico.
Erro nº4: Estrutura sem reposição suficiente é prejuízo garantido
A estrutura fica ociosa, o investimento não se paga e o produtor acaba comprando animais em momentos de preço ruim só para manter a operação rodando, o que compromete a margem da safra inteira.
O mercado de fêmeas e o impacto direto na TIP
A engorda de fêmeas, que por muito tempo ficou restrita a animais de descarte obrigatório, virou um negócio profissional e com demanda consistente, e esse movimento tem impacto direto na TIP. O mercado de carnes com padrão de qualidade acima da média criou demanda por novilhas terminadas a pasto, o que ampliou o uso da tecnologia para além da engorda de machos.
Como resultado, a cotação da novilha em muitas praças está mais próxima do boi gordo do que da vaca, e o produtor que antes terminava só machos na TIP passou a enxergar a fêmea como uma segunda opção de produção viável dentro da mesma estrutura. Houve períodos recentes em que o abate de fêmeas superou o de machos no Brasil, algo sem precedente histórico, e isso pressionou ainda mais o gargalo da reposição que a RIP já buscava resolver.
Para onde vai a pesquisa com TIP
Segundo o professor, as fronteiras da pesquisa com TIP ainda têm muito espaço aberto.
A avaliação de novos alimentos alternativos, como DDG, fibras solúveis e silagem de grãos, segue em ritmo contínuo: o comportamento desses ingredientes dentro da TIP tem nuances diferentes do confinamento convencional porque o animal regula o consumo do cocho em função do que come no pasto, e vice-versa. Essa interação exige estudos específicos, separados dos que já existem para o confinamento.
O campo com mais potencial para os próximos anos, na avaliação de Gustavo Siqueira, é a gestão do pasto dentro da TIP. A maioria dos projetos ainda opera com pastagens abaixo do potencial produtivo, e a introdução de adubação e manejo rotacionado mais estruturado pode elevar a capacidade de suporte de 15 para 25 ou 30 bois por hectare por ano sem mudar animal, ração ou infraestrutura.
Junto com isso, cresce o interesse em entender como a fertilidade do solo evolui em áreas de TIP ao longo dos anos, já que o esterco, a urina e a matéria orgânica acumulada funcionam como insumos que a fazenda não está comprando por fora.
Sustentabilidade: o argumento que vai além da narrativa ambiental
A intensificação a pasto reduz pressão sobre novas áreas. Nesse cenário, a TIP tem uma relação direta com o uso eficiente da terra, e esse argumento vai muito além do discurso ambiental.
Pois, quando uma área passa de 2 para 15 bois por hectare por ano, ela libera espaço. Esse espaço não precisa ser convertido em pasto novo, não precisa pressionar nenhuma fronteira e não precisa ser aberto. Em outras palavras, a intensificação substitui a expansão.
Se o pasto mais produtivo fixa mais carbono e se o ciclo mais curto do animal significa menos emissão por quilo de carne produzida, a equação ambiental fecha em mais de uma frente: o bem-estar animal também entra nesse contexto: animais a pasto, com liberdade de movimento e adaptados ao ambiente, tendem a apresentar menos problemas sanitários, o que reduz custo, melhora o desempenho e atende a exigências crescentes de mercados compradores. Todos esses argumentos são fatores produtivos com impacto direto na rentabilidade da fazenda.
Também pode te interessar: Pasto, eficiência e informação: o tripé da RIP e TIP no Brasil
FAQ – Perguntas frequentes sobre TIP e RIP
O que é TIP na pecuária?
TIP significa Terminação Intensiva a Pasto. É um sistema de engorda de bovinos que combina pastagem com fornecimento de ração no cocho, permitindo aumentar de forma expressiva a quantidade de animais por hectare. Um sistema extensivo bem manejado produz cerca de 2 bois por hectare por ano, enquanto a TIP bem conduzida chega a 15 ou mais.
Qual a diferença entre TIP e RIP?
A TIP é a fase de terminação, ou seja, a engorda final do animal antes do abate. A RIP é a fase de recria, a etapa anterior em que o bezerro desmamado ganha peso e estrutura corporal. As duas usam pastagem com suplementação concentrada, mas atendem fases diferentes do ciclo produtivo e têm métricas de avaliação distintas.
TIP é mais barata do que o confinamento?
Não necessariamente. O custo alimentar por animal pode ser equivalente nos dois sistemas. A TIP costuma ter custo de infraestrutura mais baixo, mas o pasto tem custo de produção que precisa ser mensurado. Tratar a forragem como gratuita é um dos erros mais comuns em projetos de TIP.
O que é rendimento de ganho?
É a proporção entre o ganho de carcaça e o ganho de peso vivo do animal ao longo do período de engorda. Um rendimento de ganho alto indica que o animal está convertendo o que come em músculo e gordura com eficiência, e não apenas em conteúdo gastrointestinal. É uma métrica mais precisa do que o ganho médio diário para avaliar a eficiência real da engorda.
O que é o boi 777?
É um conceito produtivo que propõe que o animal produza 7 arrobas na fase de cria, 7 na recria e 7 na engorda, completando o ciclo em menos de 24 meses. A RIP e a TIP são as ferramentas que tornam esse modelo viável em escala. O gargalo que persiste, mesmo depois de anos de avanço técnico, é a recria.
Sobre Gustavo Siqueira:
Gustavo Rezende Siqueira é zootecnista, doutor em Zootecnia pela UNESP Jaboticabal, e pesquisador científico da APTA (Polo Colina/SP). Também atua como professor convidado no Programa de Pós-graduação em Zootecnia da FCAV-Unesp. https://eventos.ufu.br/palestrante/2017/12/gustavo-rezende-siqueira
Ele é criador do conceito Boi 7.7.7 (abate aos 24 meses, com 7 arrobas na recria e 7 na terminação), referência nacional em suplementação na recria e confinamento, e pesquisador em aditivos para ensilagem de cana-de-açúcar. https://srcg.com.br/noticias/confinar-2018-especialistas-lancam-livro-sobre-o-conceito-777
Possui 100 artigos indexados, 37 capítulos de livros, 2.693 citações (h-index: 29) e foi eleito entre os “Zootecnistas Mais Influentes de 2023” pela ABZ. https://scholar.google.com/citations?user=jcwPaXgAAAAJ&hl=en
Gustavo é amplamente reconhecido por transformar a pecuária de corte brasileira com sistemas intensivos que antecipam o abate, reduzem custos e aumentam a rentabilidade por hectare. https://girodoboi.canalrural.com.br/pecuaria/tecnologia-e-inovacao/recria-intensiva-a-pasto-antecipa-o-abate-reduz-custos-e-aumenta-a-margem-por-hectare-entenda/
