Monensina: o que é, para que serve e por que virou alvo da Europa

A monensina sódica é o ionóforo mais usado nos confinamentos brasileiros. Ela segue permitida no Brasil, sem nenhuma restrição nova em 2026, e mesmo assim se tornou o nome mais repetido na discussão sobre o veto europeu à carne bovina do país. Boa parte do que circula sobre ela está errado, a começar pela ideia de que teria sido proibida. Entenda o que está em jogo a seguir!  

Resposta rápida: a monensina sódica é um ionóforo, aditivo usado na dieta de bovinos de corte para melhorar a conversão alimentar e controlar a acidose ruminal. Ela age inibindo bactérias que produzem ácido lático, gás metano e hidrogênio, e favorecendo as que produzem propionato, fonte de energia mais eficiente para o animal. A monensina não consta da lista de substâncias banidas pela Portaria SDA/MAPA nº 1.617/2026 e segue permitida no país. A questão em aberto está na regra europeia de exportação, não na legislação brasileira. 

A monensina é o ionóforo mais usado nos confinamentos do Brasil 

Ionóforos são uma classe de antibiótico com ação seletiva sobre a parede celular de bactérias. A monensina é a mais usada dessa classe no país, seguida por salinomicina, lasalocida e narasina. Ela entra na dieta em dose baixa e contínua, geralmente misturada à ração ou ao núcleo mineral, e não trata infecção: seu papel é nutricional e preventivo. 

Ela age mudando quem domina a fermentação no rúmen 

O rúmen abriga duas populações de bactérias com metabolismos diferentes. As gram-positivas fermentam o alimento produzindo ácido lático, hidrogênio e metano, formas de energia que o animal não aproveita bem. As gram-negativas produzem propionato, que o fígado converte em glicose com maior eficiência. A monensina se liga à parede das bactérias gram-positivas e interfere no transporte de íons através dela, o que reduz sua população no rúmen. As gram-negativas, mais resistentes a esse mecanismo, ganham espaço. O resultado é uma fermentação que entrega mais energia aproveitável pelo mesmo volume de alimento, segundo revisão da Embrapa sobre o uso de ionóforos em bovinos de corte

O ganho aparece na conversão alimentar e no controle de acidose 

Na prática, isso se traduz em efeitos que o confinamento sente na balança. O animal consome menos matéria seca para ganhar o mesmo peso, porque a energia da dieta é usada com mais eficiência. O pH ruminal fica mais estável, o que reduz o risco de acidose em dietas com alto teor de grão. E a monensina tem ação coccidiostática, auxiliando no controle de Eimeria bovis e Eimeria zuerni, protozoários que causam coccidiose em bezerros e em animais recém-chegados ao confinamento. Um efeito adicional, menos comentado, é a redução na produção de metano entérico, consequência direta da queda na população de bactérias metanogênicas. 

Ionóforo não é a mesma coisa que antibiótico de uso humano 

A confusão mais comum é tratar qualquer antimicrobiano como equivalente. Três pontos separam a monensina dos antibióticos que preocupam a saúde humana: 

  • A monensina e os outros ionóforos usados no país, salinomicina, lasalocida e narasina, não têm registro para uso em medicina humana. 
  • A Organização Mundial da Saúde classifica essas moléculas como não medicamente importantes, categoria distinta dos antibióticos compartilhados entre pessoas e animais. 
  • Por isso, o risco de resistência bacteriana relevante para a saúde humana é tratado como de outra ordem, em comparação com antibióticos como a bacitracina, banida pela Portaria 1.617 justamente por esse motivo. 

Essa distinção é o argumento central do setor brasileiro na negociação com a Europa, mesmo que o bloco não abra exceção por classe química. 

A monensina não está na lista de banidos, nem aqui nem lá 

No Brasil, a Portaria SDA/MAPA nº 1.617/2026 proibiu cinco substâncias como melhoradoras de desempenho: avoparcina, bacitracina, bacitracina de zinco, bacitracina metileno disalicilato e virginiamicina. A monensina não está entre elas e segue liberada para uso em confinamento. Na União Europeia, a restrição a ionóforos como promotor de crescimento é antiga: desde 2006 o bloco proíbe esse uso dentro das próprias fronteiras, por precaução. O que entrou em vigor em 3 de setembro de 2026 foi outra exigência, a de comprovar, animal por animal, que o gado exportado não recebeu esse tipo de substância. O panorama completo dessa regra está no texto sobre antimicrobianos na pecuária e por que a Europa vetou a carne do Brasil

A dupla função da molécula é o que abre a brecha regulatória 

A monensina acumula duas funções, e é aí que mora o ponto de atrito. Como anticoccidiano, ela tem finalidade sanitária, categoria que a regra europeia não veta. Como modulador da fermentação ruminal, ela também melhora a conversão alimentar e o ganho de peso, efeito que pode ser lido como uso para desempenho, justamente a categoria que a União Europeia restringe nas importações. Uma mesma dose, dois efeitos, duas leituras regulatórias possíveis. É esse conflito de enquadramento que mantém a monensina no centro da negociação entre o governo brasileiro e a Comissão Europeia. 

A molécula não mudou, o que muda é o que se pede para provar 

A monensina que entra na dieta hoje é a mesma que entrava há dez anos, com o mesmo mecanismo e o mesmo registro no Brasil. O que mudou foi o padrão de prova que o principal comprador da carne de alto valor passou a exigir: não basta o produto ser permitido, é preciso comprovar que o animal não o recebeu, com histórico auditável desde a fazenda.  

Perguntas frequentes sobre a monensina 

A monensina está proibida no Brasil? 

Não. A Portaria SDA/MAPA nº 1.617/2026 proibiu cinco substâncias como melhoradoras de desempenho, avoparcina, bacitracina, bacitracina de zinco, bacitracina metileno disalicilato e virginiamicina, e a monensina não está entre elas. Ela segue permitida no país. A questão em aberto envolve a exportação para a União Europeia, que exige comprovar que o animal não recebeu esse tipo de aditivo, e não uma proibição de uso no Brasil. 

A monensina exige período de carência antes do abate? 

Não. Nas doses recomendadas, a monensina não deixa resíduo relevante na carne, por isso o registro do produto no Brasil não determina período de carência para o abate. Essa característica também ajuda a explicar por que a exigência europeia não se resolve com análise laboratorial na carcaça: a comprovação pedida é de histórico de uso, não de resíduo encontrado. 

Existe substituto direto para a monensina? 

Existem aditivos alternativos, como óleos essenciais, leveduras vivas e ácidos orgânicos, que atuam em parte da mesma direção, modulando a fermentação ruminal ou estabilizando o pH. Nenhum reproduz sozinho o conjunto completo de efeitos da monensina, que soma ação sobre a fermentação e ação anticoccidiana na mesma molécula. 

Qual a diferença entre monensina, salinomicina, lasalocida e narasina? 

As quatro são ionóforos usados na pecuária brasileira, com mecanismo de ação semelhante e efeito parecido sobre a fermentação ruminal. A monensina é a mais usada e mais estudada no país. As diferenças entre elas estão na dose recomendada, no espectro de ação anticoccidiana e no perfil de segurança para cada categoria animal, o que orienta a escolha técnica em cada dieta. 

Fontes 

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