Custo do boi confinado por dia: o ICAP de setembro de 2026
Por Paulo Dias, CEO da Ponta, aficionado por tecnologia e apaixonado pelo agro.
Em setembro de 2026, alimentar um boi confinado custou R$ 11,57 por dia no Sudeste e R$ 12,68 no Centro-Oeste, segundo o ICAP. Com a arroba a R$ 356 e R$ 333,50, uma arroba vendida pagou 30,77 dias de cocho no Sudeste, recorde da série, e 26,30 dias no Centro-Oeste. Em dois anos, o custo do cocho ficou praticamente onde estava e a arroba subiu cerca de 50%. O que aperta a margem é a reposição: nos últimos meses, o boi magro cobrou quase 20% de ágio sobre o gordo no Centro-Oeste.
Uma arroba de boi gordo nunca pagou tanto cocho. E o boi magro nunca cobrou tão caro.
Setembro bateu um recorde que eu venho esperando desde que comecei a medir o custo de alimentar boi confinado: no Sudeste, uma arroba vendida passou a pagar 30,77 dias de comida no cocho. Primeira vez acima de 30 dias desde que publicamos o índice. Há dois anos, pagava 20.
Nos últimos meses, o boi magro cobrou um ágio de quase 20% sobre o gordo no Centro-Oeste.
Essas duas frases resumem o confinamento de 2026. Vou explicar as duas. Mas, como é a primeira vez que apresento o indicador por aqui com calma, vale começar por ele.
Por que eu meço quanto custa alimentar um boi por dia
Confinamento é negócio de margem sobre peso. Você compra quilo (o boi magro), produz quilo dentro da porteira (a arroba produzida) e vende o conjunto. O lucro mora na diferença entre o que custa produzir a arroba e o que ela vale na venda. E, nos lotes que acompanhamos, a nutrição é 80% do custo da arroba produzida. Oito de cada dez reais.
Todo confinador sabe o preço da dieta por tonelada. Mas o custo real sai de três coisas juntas: o preço de cada ingrediente, a formulação de cada fase (adaptação, crescimento, terminação) e quanto o boi come de verdade por dia. O ICAP, Índice de Custo Alimentar Ponta, junta as três num número só: quanto custa, em reais, alimentar um boi por dia no confinamento.
Como a gente faz: medimos o custo desde 2023 e, desde janeiro de 2024, publicamos todo mês as dietas reais e os preços reais dos insumos em estoque nos confinamentos clientes do Centro-Oeste e do Sudeste. Não é cotação de bolsa. Não é preço de lista. É o que passou pela boca do boi. Setembro foi a 33ª edição.
Dele sai a medida que eu mais uso quando converso com confinador: a Relação de Troca. Preço da arroba dividido pelo ICAP. O resultado é quantos dias de cocho uma arroba vendida paga. Se sobe, a receita está correndo mais que o custo. Se cai, o cocho está encarecendo em relação ao boi.
Setembro de 2026 em números
Sudeste. ICAP de R$ 11,57 por cabeça por dia, estável no mês e 5% abaixo de setembro de 2025. Menor patamar desde agosto de 2024. A dieta de terminação caiu pelo sétimo mês seguido, com o caroço de algodão 16% mais barato. Do outro lado, arroba a R$ 356, a maior da série na região. Relação de Troca: 30,77 dias. Com 112 dias de cocho e 7,91 arrobas produzidas, o confinador paga toda a comida com 3,64 arrobas. É 46% da produção, o menor percentual que já medimos.
Centro-Oeste. ICAP de R$ 12,68, alta de 6,64%, a maior desde março. Milho saindo do piso da safrinha (R$ 830 a tonelada, segundo mês de alta), silagem de milho mais cara e consumo de matéria seca de volta aos 10 kg por dia. Mas calma: é um dos menores valores que já medimos na região e está no mesmo nível de um ano atrás. Arroba a R$ 333,50. Relação de Troca: 26,30 dias, a quarta maior da história regional.
O trimestre. ICAP médio de R$ 12,56 no Centro-Oeste e R$ 11,53 no Sudeste. Respectivamente 8,9% e 7,5% abaixo do terceiro trimestre de 2025. Sétimo mês seguido com o Sudeste mais barato que o Centro-Oeste.
Dois anos atrás
Centro-Oeste, de setembro de 2024 para setembro de 2026
- ICAP: de R$ 13,53 para R$ 12,68 por cabeça/dia;
- arroba: de R$ 217,50 para R$ 333,50;
- Relação de Troca: de 16,08 para 26,30 dias.
Sudeste, de setembro de 2024 para setembro de 2026
- ICAP: de R$ 11,86 para R$ 11,57 por cabeça/dia;
- arroba: de R$ 245,25 para R$ 356,00;
- Relação de Troca: de 20,68 para 30,77 dias.
O custo de alimentar o boi ficou praticamente onde estava. A arroba subiu cerca de 50%. Com os parâmetros produtivos de hoje e os preços de setembro de 2024, a comida consumiria 88% da receita das arrobas produzidas no Centro-Oeste. Hoje consome 54%. É esse o tamanho da virada.
Agora, a parte que ninguém quer ouvir: a reposição
Tudo que eu disse até aqui é sobre a arroba produzida dentro da porteira. O ICAP e a Relação de Troca não enxergam o boi magro. E o boi magro está cobrando caro.
Na nossa leitura de mercado, o ágio do magro sobre o gordo no Centro-Oeste saiu de 12% em junho para 20% em julho e ficou em 18% em agosto. Em agosto, esse ágio consumiu 68% do lucro da arroba produzida na região. No Sudeste, oscila entre 7% e 9%. O ciclo pecuário virou, bezerro e boi magro subiram, e quem está alojando agora paga esse prêmio antes de colocar o primeiro trato no cocho.
É por isso que eu insisto: Relação de Troca recorde não é lucro garantido.
Mas aqui está o que me deixa otimista, e é o ponto central deste artigo. O que está segurando a margem do confinamento em 2026 são duas coisas que o confinador controla melhor do que o preço do magro: a arroba vendendo bem e o custo nutricional parado. Arroba a R$ 356 com ICAP de R$ 11,57 é o que gera lucro na arroba produzida, e é esse lucro que está pagando o ágio. Se o cocho tivesse encarecido junto com o magro, a conta não fecharia. Em 2024 não fechou.
Em outras palavras: a reposição aperta a margem total. A eficiência dentro da porteira é o que impede que ela desapareça.
O confinador do Centro-Oeste mudou o manejo. E acho que foi de propósito.
Tem um dado em setembro que diz mais do que parece. Os animais abatidos no Centro-Oeste ficaram 118 dias no cocho, o giro mais longo do ano, e produziram 8,32 arrobas por cabeça. Entre fevereiro e junho, na maior parte dos meses, os animais saíam com 7,3 a 7,7 arrobas. No meio do ano, o giro estava em 99 dias.
Leio isso como decisão, não como acaso. Com o boi magro caro, cada animal que entra custa mais. A resposta do confinador foi explorar mais a carcaça de cada boi que já está dentro: mais dias, mais arrobas por cabeça, diluindo o ágio em mais quilos produzidos. Tem um custo. O custo por arroba produzida no Centro-Oeste subiu para R$ 224,52, porque as últimas arrobas são as mais caras de produzir. Mas, com a arroba no patamar de setembro, ainda sobra margem em cada uma delas. É manejo respondendo a mercado. É exatamente o que se espera de um confinamento que virou empresa.
O que eu levo para o fim de ano
Quatro coisas.
- Milho na entressafra, no Centro-Oeste. O índice já começou a refletir a recuperação. Quem não está comprado, acompanhe.
- Fim da moagem de cana, no Sudeste. Bagaço a R$ 155 a tonelada hoje. O volumoso de dezembro se planeja agora.
- A conta completa antes de alojar. Quanto custa o quilo que entra, quanto custa o quilo que você produz, por quanto sai o conjunto. Com o ágio nesse nível, não dá para alojar olhando só a Relação de Troca.
- Processo e tecnologia dentro da porteira. O preço do magro e do milho eu não controlo. O que acontece entre a fábrica de ração e a boca do boi, eu controlo.
Com 118 dias de cocho, a comida de um boi no Centro-Oeste custa perto de R$ 1.500 no ciclo. Cada 1% que se perde entre a dieta formulada e a dieta que chega no cocho, por batida errada, sobra mal lida ou trato fora de hora, são R$ 15 por cabeça. Em cinco mil cabeças, R$ 75 mil por giro.
Tecnologia aqui não é luxo: é pesar o que foi batido, conferir o que foi entregue e ler o que sobrou, todo dia, com dado e não com olhômetro. É o único custo do confinamento que cai sem depender de mercado.
Uma arroba paga 30 dias de cocho no Sudeste e 26 no Centro-Oeste. Há dois anos eram 20 e 16. É o melhor momento, desde que publicamos o índice, na relação entre custo alimentar e receita, e é ele que está segurando a margem contra um magro caro. Quem fizer as duas contas e apertar o processo dentro da porteira atravessa o fim de ano bem. Quem fizer só uma, descobre no fechamento do lote.
Quem quiser receber o relatório mensal do ICAP, o cadastro é gratuito.
Fontes dos dados citados:
- ICAP (Índice de Custo Alimentar Ponta): calculado mensalmente pela Ponta a partir das dietas e dos preços médios dos insumos em estoque nos confinamentos clientes no Centro-Oeste e no Sudeste. Série publicada desde janeiro de 2024, com dados medidos desde 2023.
- Cotações da arroba: mercado físico, Scot Consultoria.
- Relação de Troca e percentuais de produção: referem-se às arrobas produzidas pelos animais abatidos no mês, sem incluir a compra do boi magro.
- Ágio e margem do sistema completo: simulação da Ponta com médias mensais de mercado, última leitura de agosto de 2026.
Sobre Paulo Dias:
Baiano, filho de pecuarista por legado, aficionado por tecnologia por vocação e apaixonado pelo agro por propósito, Paulo Dias é CEO da Ponta, a maior plataforma brasileira de tecnologia e gestão da informação na cadeia da pecuária, presente em 9 países e gerindo mais de 8 milhões de cabeças por ano, da pesquisa à produção comercial. Zootecnista (ESUCARV), Mestre pela UNESP, especialista em Controladoria (FGV) e Gestão Estratégica (FDC), com reconhecimento nacional pela DBO como TOP 10 profissionais que evoluíram a atividade de confinamento no Brasil.
Em 2006, quando a fazenda não tinha computador nem internet, levou a coleta de dado individual do animal para dentro do curral com o TGC. Em 2008, criou a primeira automação de nutrição brasileira, antes de o mercado saber que precisava dela. Desde então, se dedica a construir pontes entre o boi e o bit.
