Consumo hídrico na Prova de Eficiência Alimentar: por que mensurar?
Pesquisas recentes mostram que a consumo hídrico está correlacionada com a Eficiência Alimentar em bovinos de corte e pode se tornar uma característica indicadora mais prática e acessível para programas de melhoramento genético.
Quando se fala em Prova de Eficiência Alimentar, o foco costuma recair sobre o consumo de matéria seca, o ganho de peso diário e os índices derivados, como o Consumo Alimentar Residual (CAR). Faz sentido: a alimentação representa mais de 80% dos custos operacionais de produção. Mas existe outra variável que, historicamente, ficou em segundo plano e agora começa a ganhar protagonismo na pesquisa genética: o consumo hídrico individual.
A água é o nutriente mais essencial para bovinos. Apesar dessa importância fisiológica, a mensuração individualizada do consumo de água ainda é pouco difundida nas provas de eficiência. Isso está prestes a mudar, e os motivos são científicos, econômicos e ambientais.
O que a ciência diz sobre eficiência hídrica em bovinos
Um estudo publicado no Journal of Animal Breeding and Genetics por Souza et al. (2025), com participação de pesquisadores da Embrapa Gado de Corte e da Universidade Federal de Viçosa, avaliou parâmetros genéticos para características de eficiência hídrica em 1.762 bovinos Senepol. Os animais foram fenotipados para cinco métricas de eficiência no uso de água:

Os resultados mostraram que essas características possuem herdabilidades de moderadas a altas. Isso significa que existe variação genética suficiente para que a seleção reduza o consumo de água necessário para produzir carne. Em outras palavras, é possível identificar e selecionar animais geneticamente mais eficientes no uso de água.
Outro achado relevante: todas as características de eficiência hídrica se mostraram moderada a altamente correlacionadas entre si. Além disso, diferentemente da medida bruta de consumo de água, as métricas residuais (CRA baseado no GMD e CRA baseado no CMS) apresentaram correlação fenotípica próxima a zero com o ganho médio diário de peso. Ou seja, selecionar para menor consumo residual de água não prejudica o desempenho em ganho de peso.
Eficiência hídrica como indicadora de Eficiência Alimentar
A conexão entre consumo de água e consumo de alimento é mais profunda do que a simples observação de que animais que comem mais também bebem mais.
Estudos demonstram que existe correlação genética favorável entre CAR e CHR, sugerindo que animais mais eficientes no uso do alimento também tendem a ser mais eficientes no uso da água. Pesquisas anteriores, como o de Ahlberg et al. (2019), já haviam demonstrado que o consumo de água em bovinos de corte possui herdabilidade expressiva (0,39) e forte correlação genética positiva com a razão água/ganho (0,99). Isso indica que selecionar para menor consumo de água também melhora a eficiência hídrica global.
Assim, a perspectiva que se abre é promissora: a eficiência hídrica pode, no futuro, funcionar como uma característica indicadora da Eficiência Alimentar. Isso porque mensurar o consumo de água traz uma vantagem operacional significativa em relação ao consumo de matéria seca: não exige necessariamente uma área confinada.
Para medir o consumo alimentar individual, o animal precisa estar em um sistema controlado com cochos eletrônicos em ambiente confinado. Já a mensuração do consumo hídrico pode ser realizada por meio de bebedouros eletrônicos instalados em diferentes ambientes, inclusive a pasto. Se a correlação genética entre eficiência hídrica e alimentar se confirmar como forte e consistente em diferentes populações e raças, abre-se a possibilidade de avaliar um número muito maior de animais, com custo operacional menor e em condições mais próximas da realidade produtiva.
Consumo hídrico: por que isso importa para a pecuária sustentável
A pegada hídrica da cadeia produtiva da carne bovina é um dos temas mais sensíveis quando se discute a sustentabilidade do setor. Dados do USDA mostram que, entre 1991 e 2019, o consumo de água por quilo de carne bovina produzida nos Estados Unidos caiu 37,6%, impulsionado por avanços em eficiência e gestão. Mas ainda existe muito espaço para avançar.
A seleção genética para eficiência hídrica representa uma frente adicional nessa busca. Em regiões tropicais como o Brasil, onde oscilações de temperatura e umidade afetam diretamente o consumo de água dos animais, identificar e multiplicar genéticas que produzem mais com menos água é uma estratégia de longo prazo com impacto acumulativo relevante.
O estudo de Souza et al. (2025) identificou, por meio de GWAS (estudo de associação genômica ampla), regiões do genoma envolvidas em processos biológicos como produção de saliva, transporte de água, sistema renal e sistema imunológico. Isso reforça que a eficiência hídrica é uma característica poligênica, influenciada por múltiplos processos fisiológicos simultâneos, o que torna a seleção genômica uma ferramenta especialmente adequada para promover ganhos nessa área.
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Intergado Efficiency: a tecnologia que já mensura consumo hídrico individual
A boa notícia é que a tecnologia para mensurar o consumo hídrico individual já existe e é brasileira. A solução Intergado Efficiency, da Ponta, integra cochos eletrônicos, bebedouros eletrônicos e balanças de pesagem voluntária em um sistema completo para avaliação de Eficiência Alimentar.
Os bebedouros eletrônicos do Intergado Efficiency registram o volume de água consumido por cada animal individualmente, identificando-o por meio do brinco eletrônico. Esse é exatamente o tipo de dado necessário para calcular as métricas de eficiência hídrica descritas na pesquisa de Souza et al. (2025).
Já a Balança VW 1000, instalada junto ao bebedouro, realiza a pesagem voluntária dos animais toda vez que eles vão beber água. Como o animal está executando uma atividade de rotina, o momento da pesagem é livre de estresse, o que garante maior estabilidade e precisão nos dados de peso. Essa dinâmica permite obter múltiplas pesagens diárias por animal, gerando curvas de crescimento detalhadas sem necessidade de manejo adicional.
Toda a informação coletada por cochos, bebedouros e balanças é enviada automaticamente para a nuvem e processada pelo Sistema Intergado Efficiency, que realiza a análise estatística e gera alertas em tempo real. O sistema calcula as principais métricas de Eficiência Alimentar, e de Eficiência Hídrica, como CAR (Consumo Alimentar Residual), GR (Ganho Residual) e CHR (Consumo Hídrico Residual), e pode integrar esses dados diretamente com programas de melhoramento genético.
A vantagem de mensurar na água: mais animais, menos estrutura
As provas de Eficiência Alimentar tradicionais exigem uma estrutura de confinamento dedicada, com cochos eletrônicos e área controlada. Isso limita o número de animais que podem ser avaliados por ciclo e eleva o custo por animal testado. Com a pesagem voluntária do Intergado Efficiency, provas que antes demandavam 70 dias já podem ser realizadas em 42 dias válidos, reduzindo significativamente o tempo de teste.
Agora, imagine o cenário futuro: se a eficiência hídrica se consolidar como indicador confiável de Eficiência Alimentar, a mensuração poderá ser ampliada para ambientes a pasto, utilizando bebedouros eletrônicos acoplados a balanças de pesagem voluntária. Isso permitiria avaliar um volume muito maior de animais, incluindo matrizes e animais em recria, que dificilmente seriam submetidos a uma prova convencional de eficiência alimentar.
Essa escalabilidade é especialmente relevante para o Brasil, onde a maior parte do rebanho é criada a pasto e os programas de melhoramento genético precisam de amostras grandes para produzir DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie) com alta acurácia.
Olhando para o futuro
A pesquisa sobre eficiência hídrica em bovinos ainda está em estágio de consolidação. São necessários estudos em diferentes raças, ambientes e sistemas de produção para validar as correlações genéticas com Eficiência Alimentar e definir critérios de seleção robustos. Mas os resultados já obtidos com a raça Senepol são animadores e apontam um caminho promissor.
O que já é possível afirmar é que mensurar o consumo hídrico na prova de Eficiência Alimentar agrega uma camada valiosa de informação genética. Mesmo antes de se tornar um critério de seleção independente, o dado de consumo de água enriquece o banco de dados fenotípicos e contribui para o avanço da pesquisa.
A Ponta, por meio do Intergado Efficiency, já oferece a infraestrutura tecnológica necessária para capturar esses dados de forma automatizada e confiável. Mais de 90% das provas de Eficiência Alimentar realizadas no Brasil utilizam a tecnologia da Ponta e a capacidade de mensurar o consumo hídrico individual posiciona nossos clientes na vanguarda dessa nova fronteira do melhoramento genético bovino.
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Referências
Souza, C. B. et al. (2025). Estimation of Genetic Parameters and GWAS on Water Efficiency Traits in the Senepol Cattle. Journal of Animal Breeding and Genetics, 142(5), 487-498. https://doi.org/10.1111/jbg.12920
Ahlberg, C. M. et al. (2019). Characterization of water intake and water efficiency in beef cattle. Journal of Animal Science, 97(12), 4770-4782.
