Pecuária de Goiânia: a força da capital goiana no mercado da carne
Goiânia é a capital de um estado com mais de 22,8 milhões de cabeças de gado, o que faz de Goiás o terceiro maior rebanho bovino do país. Somente em 2025, o Valor Bruto da Produção da pecuária goiana atingiu R$ 20,4 bilhões, o maior já registrado na série histórica. Diante desses números, falar em pecuária de Goiânia vai muito além de associar a cidade à sua tradicional exposição agropecuária. Trata-se, antes de tudo, de uma atividade que moldou a formação da capital, que estruturou a economia de Goiás ao longo de décadas e que permanece como um dos pilares do agronegócio brasileiro.
Para entender como essa posição foi construída, porém, é preciso olhar para as origens da atividade no estado, para o papel que a Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA) exerceu na organização do setor e, sobretudo, para os indicadores que hoje colocam Goiás entre os maiores exportadores de carne bovina do mundo.
As raízes da pecuária em Goiânia e em Goiás
Como a pecuária se consolidou em Goiás?
A criação de gado em Goiás é anterior à própria fundação de Goiânia. Isso porque, com o esgotamento do ciclo do ouro no início do século XIX, a população que permaneceu no estado precisou encontrar alternativas econômicas. A pecuária extensiva e a agricultura de subsistência foram, então, as atividades que garantiram a sobrevivência e o desenvolvimento material da região. Durante quase dois séculos, o gado era criado à solta sobre pastagens naturais, sem estrutura técnica ou representação institucional organizada.
Esse cenário, contudo, começou a mudar nas décadas de 1930 e 1940, quando o governo Vargas passou a incentivar a ocupação produtiva do Brasil Central. A construção de Goiânia, inaugurada oficialmente em 1942, representou um marco nessa transição. A nova capita, cidade planejada, trouxe consigo investimentos, infraestrutura e visibilidade para uma região que, até então, permanecia distante dos grandes centros de decisão. Como consequência direta, a pecuária goiana se beneficiou desse movimento e ganhou, ao mesmo tempo, escala e organização.
A pecuária em Goiás antecede a fundação de Goiânia e se consolidou como principal atividade econômica do estado após o esgotamento do ciclo do ouro, ainda no século XIX.
Qual o papel da SGPA na pecuária de Goiânia?
A Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA) foi fundada em 19 de maio de 1941, durante uma reunião no Automóvel Club de Goiânia. O principal articulador dessa iniciativa foi Altamiro de Moura Pacheco, médico, agropecuarista e empresário que viria a assumir a primeira presidência da entidade. Pedro Ludovico Teixeira, interventor federal à época, foi nomeado presidente de honra. Atualmente, a SGPA conta com cerca de 5 mil sócios e atua há mais de 84 anos na representação dos produtores rurais goianos.
Vale lembrar que a entidade nasceu apenas oito anos após a fundação da capital, num momento em que Goiânia ainda se consolidava como centro urbano. Além de representar os produtores, a SGPA também foi responsável por organizar a primeira Exposição Agropecuária de Goiás, em julho de 1942, quando reuniu 80 criadores e 264 animais. Mais do que eventos, porém, a contribuição da SGPA está no fomento ao avanço genético do rebanho goiano. O próprio livro institucional da entidade carrega o título “História da SGPA, Domando o Boi pela Genética”, justamente em referência a esse trabalho de décadas em melhoramento e seleção de raças.
Altamiro de Moura Pacheco, além de fundar a SGPA, teve participação ativa na transferência da capital federal para Brasília e doou terrenos que deram origem ao aeroporto de Goiânia e ao Parque Ecológico que hoje leva o seu nome. A partir desses fatos, fica evidente que a urbanização de Goiânia e o desenvolvimento da pecuária goiana estão entrelaçados desde a década de 1940.
A Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA) foi fundada em 19 de maio de 1941 por Altamiro de Moura Pacheco e atua há mais de 84 anos na representação dos produtores rurais e no fomento da pecuária em Goiás.
Goiânia, vale destacar, não é o município com o maior rebanho bovino do estado. Essa posição pertence a Nova Crixás, com mais de 849 mil cabeças de gado. Ainda assim, é na capital que se concentram as estruturas de governança e inteligência do setor: a sede da SGPA, a Secretaria de Agricultura (Seapa), a Agrodefesa, associações de raças, escritórios de genética, além de um número crescente de empresas de tecnologia voltadas ao campo. A região, inclusive, abriga operações de referência como a Kiko’s Ranch. Foi em Goiânia, também, que surgiu a Gestão Agropecuária, uma das precursoras em tecnologia para pecuária na cidade, empresa que, em fusão com a Intergado, viria a se tornar a Ponta. Por essa razão, Goiânia funciona como o centro decisório de uma cadeia produtiva que se estende por mais de 130 mil propriedades rurais em todo o estado.
A pecuária de Goiás em números
Qual o tamanho do rebanho bovino de Goiás e o que ele representa no cenário nacional?
De acordo com dados da Agrodefesa, Goiás registrou mais de 22,8 milhões de cabeças de gado no primeiro semestre de 2025. Esse volume coloca o estado na terceira posição do ranking nacional, ficando atrás apenas de Mato Grosso (32,1 milhões) e Pará (25 milhões). Em termos proporcionais, Goiás responde por cerca de 10% do efetivo bovino brasileiro, que é estimado em 238 milhões de cabeças. Todo esse rebanho está distribuído em aproximadamente 130.850 propriedades rurais.
No que diz respeito ao abate, a posição se mantém igualmente forte. No primeiro trimestre de 2025, o estado garantiu a terceira colocação nacional, com 476,9 mil bois, 356,9 mil vacas e 177,5 mil novilhas processadas. O crescimento no abate de fêmeas jovens, inclusive, indica uma produção cada vez mais voltada para cortes de maior valor agregado, o que se conecta diretamente à demanda dos mercados internacionais.
No campo das exportações, os números são igualmente expressivos. A carne bovina responde por 79,1% do valor total exportado pelo estado no setor de carnes, participação que é consideravelmente superior à média nacional, de 56,4%. Em 2025, Goiás alcançou saldo de US$ 2,2 bilhões na balança comercial da carne bovina, configurando o maior valor já registrado para o estado. Há ainda um dado relevante sobre a diversificação de destinos: o número de mercados internacionais que compram carne bovina goiana saltou de 70, em 2019, para 76, em 2025. Da mesma forma, a participação dos Estados Unidos como compradores passou de 8,8% para 17,1%, enquanto a da China recuou de 50,8% para 31,4%. Esse movimento reflete um esforço deliberado de redução da dependência de um único mercado, sobretudo num cenário em que o rebanho norte-americano atingiu o menor nível em mais de 70 anos, segundo o USDA.
Em 2025, Goiás registrou saldo de US$ 2,2 bilhões na balança comercial da carne bovina, o maior da história do estado, com exportações para 76 destinos internacionais.
Do ponto de vista financeiro, o Valor Bruto da Produção da pecuária bovina goiana atingiu R$ 20,4 bilhões em 2025. Na última década, a expansão acumulada chegou a 57,6%, impulsionada principalmente pela recuperação das cotações do boi gordo a partir do segundo semestre de 2024. Para se ter uma ideia, em outubro de 2025 o preço médio do bezerro em Goiânia alcançou R$ 2.828,02, o que representa uma alta de 26% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ou seja, a pecuária goiana consegue combinar escala de produção, diversificação de mercados e valorização dos indicadores financeiros, e esse cenário tem reflexo direto na dinâmica econômica de Goiânia.
O Valor Bruto da Produção da pecuária bovina em Goiás atingiu R$ 20,4 bilhões em 2025, o maior da série histórica, com expansão acumulada de 57,6% na última década.
Status sanitário, tecnologia e competitividade
Desde março de 2024, Goiás é reconhecido como área livre de febre aftosa sem vacinação em nível nacional, conforme a Portaria nº 665 do MAPA. Esse reconhecimento foi ampliado em maio de 2025, quando a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) concedeu a certificação internacional ao Brasil e, consequentemente, ao estado. Trata-se de um avanço significativo, uma vez que esse status sanitário abre portas para mercados mais exigentes e confere a Goiás uma vantagem competitiva frente a regiões que ainda não alcançaram a mesma condição.
O trabalho da Agrodefesa, realizado em parceria com produtores e entidades do setor, foi determinante para esse resultado. A declaração obrigatória de rebanho, feita a cada semestre, é o que permite planejar ações de prevenção e controle de doenças em todo o estado. Em 2025, a adesão ao sistema Sidago cresceu de forma consistente, embora cerca de 7.800 propriedades ainda estivessem inadimplentes. Esse dado, por si só, reforça a necessidade de mobilização contínua junto ao setor produtivo.
Goiás é reconhecido como área livre de febre aftosa sem vacinação desde março de 2024 (nível nacional) e maio de 2025 (nível internacional pela OMSA), o que amplia o acesso a mercados internacionais mais exigentes.
Há, contudo, outro fator que sustenta a competitividade da pecuária goiana e que merece atenção: a adoção crescente de ferramentas de gestão e tecnologia. Isso porque o controle preciso de custos alimentares, o monitoramento de estoque de insumos, a rastreabilidade individual dos animais e a mensuração de eficiência alimentar são, hoje, elementos que passaram a separar quem opera com margem de quem opera sem visibilidade sobre os próprios resultados.
Na prática, ferramentas de inteligência de gestão permitem ao confinador antecipar movimentos de mercado, ajustar formulações de dieta conforme a oscilação do custo dos ingredientes e, acima de tudo, tomar decisões a partir de dados consolidados. Em um cenário de exportações para 76 destinos, onde cada mercado impõe exigências distintas de rastreabilidade e conformidade sanitária, operar sem tecnologia adequada significa drenar a margem em ineficiências que poderiam ser evitadas.
Goiânia, nesse contexto, ocupa uma posição estratégica. Como polo de empresas de tecnologia para o agro e sede das principais entidades do setor, a capital reúne, em um mesmo perímetro, quem desenvolve soluções e quem toma decisões sobre política agropecuária. Essa proximidade cria um ambiente favorável à adoção de ferramentas que elevam tanto a produtividade quanto a rastreabilidade do rebanho goiano.
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Perguntas frequentes sobre a pecuária de Goiânia
Goiás é o maior produtor de gado do Brasil?
Não. Goiás ocupa a terceira posição no ranking nacional, com mais de 22,8 milhões de cabeças, ficando atrás de Mato Grosso (32,1 milhões) e Pará (25 milhões). Ainda assim, o estado responde por cerca de 10% do rebanho bovino brasileiro.
Qual a importância econômica da pecuária para Goiás?
O Valor Bruto da Produção da pecuária bovina goiana atingiu R$ 20,4 bilhões em 2025, o maior da série histórica. Além disso, o estado exportou aproximadamente US$ 2,2 bilhões em carne bovina no mesmo ano, alcançando 76 destinos internacionais.
O que é a SGPA?
A Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura é uma entidade sem fins lucrativos, fundada em 19 de maio de 1941 por Altamiro de Moura Pacheco. Atualmente possui cerca de 5 mil sócios e é a responsável pela organização da Exposição Agropecuária do Estado de Goiás há mais de oito décadas.
Goiás é área livre de febre aftosa?
Sim. Desde março de 2024, Goiás é reconhecido como área livre de febre aftosa sem vacinação em nível nacional. Em maio de 2025, a OMSA concedeu o reconhecimento internacional, o que amplia o acesso do estado a mercados mais exigentes.
Quando acontece a Pecuária de Goiânia 2026?
A 79ª edição da Exposição Agropecuária de Goiás está confirmada para o período de 14 a 24 de maio de 2026, no Parque de Exposições Pedro Ludovico Teixeira, organizada pela SGPA em parceria com a Bahrem Eventos.
