Paulo Dias: do curral ao controle individual do animal
CEO da Ponta
Antes de falar em software, dados ou confinamento, Paulo Dias fala em pecuária. Não como quem administra um negócio de tecnologia à distância, mas como quem cresceu dentro de uma fazenda e nunca deixou de pertencer a ela. Filho de pecuarista, foi na lida, e não em uma sala de aula, que ele aprendeu a enxergar os problemas que passaria a vida resolvendo. A tecnologia veio depois, como resposta, e é essa ordem que explica quem ele é.
O baiano que fez do conhecimento o seu caminho
Paulo nasceu perto de Salvador e cresceu na fazenda do pai, um pecuarista cujo conhecimento veio da vivência e imenso amor pelo campo. Da mãe, professora e diretora de escola, herdou outra coisa: a certeza de que o conhecimento era a única porta para crescer. Foi ela quem, ainda na adolescência, o incentivou a ganhar o mundo. Nordestino, Paulo gosta de dizer que buscar conhecimento é o que sobra para quem quer ser diferente, e essa fome pelo saber o acompanharia por toda a carreira.
O caminho até a Zootecnia não foi curto nem fácil. Foram muitas tentativas até a aprovação, uma passagem pelo ensino médio como atleta de judô e, já na graduação, a necessidade de se sustentar sozinho. Foi exatamente aí que a tecnologia entrou na sua vida pela primeira vez: para se sustentar como universitário, Paulo aprendeu a programar e virou braço direito de um técnico de informática na cidade, numa época em que quase ninguém no agro imaginava o que os computadores fariam pela pecuária. Aos poucos, a tecnologia se tornou uma paixão tão forte quanto a zootecnia
Do berço do bezerro ao prato: a visão que revelou o problema
Formado, Paulo mergulhou no campo de verdade. Passou anos rodando o Brasil, da genética à nutrição, acompanhando o animal em cada etapa da cadeia. Na VPJ, grupo referência em genética Angus e carnes premium, ganhou a visão que definiria sua carreira: a de quem enxerga a pecuária inteira, do nascimento do bezerro ao produto final na gôndola. Era um cuidado quase artesanal com a qualidade, o desejo de levar ao consumidor uma carne cuja história ele conhecia desde a origem.
Foi essa vivência de ponta a ponta que revelou o problema de fundo. Em toda fazenda por onde passava, com técnicos, consultores e produtores, Paulo encontrava a mesma dificuldade: as pessoas precisavam de informação de qualidade para decidir, e essa informação era ruim, cara e difícil de conseguir. Depois de anos de trabalho dedicados a um único animal, não havia espaço para uma decisão ruim tomada sobre um dado frágil. O incômodo estava plantado, e ele não passaria.
O TGC e o controle individual do animal: um sistema para cada cabeça
Por volta de 2005, Paulo decidiu dedicar-se inteiramente a resolver aquele problema. Com poucos recursos e muita determinação, desenvolveu junto a um sócio o primeiro sistema, rodado de fazenda em fazenda a bordo de um Corolla que se tornaria parte da história. Nascia o TGC, hoje base da gestão de quase 70% dos confinamentos brasileiros.
Com ele veio a contribuição que mudaria a pecuária intensiva para sempre. Até então, o confinamento era gerido pela média do lote, e a genética de um animal excepcional se perdia no meio da boiada, Paulo enxergou diferente e defendeu o controle individual do animal, com o dado de cada cabeça no centro da decisão. Diziam que era inviável, caro demais, impossível de aplicar em uma fazenda.
Ele insistiu, foi pioneiro, e transformou para sempre a precisão da gestão no campo. É o legado que ele considera o seu maior, e que o setor não tardaria a reconhecer.
GA e Intergado: duas empresas que já faziam história
A Ponta nasceu da união de dois projetos pautados pelo valor da informação. A GA, fundada por Paulo, deu origem ao TGC, Tecnologia de Gestão para Confinamentos, que já era referência no setor e que completa vinte anos em 2026.
Do outro lado, Marcelo Ribas e Tobias Soares construíam a mesma trajetória de reconhecimento à frente da Intergado, com soluções como a Intergado Efficiency, lançada em 2013, também pioneira no mercado do melhoramento genético, especialmente para provas de eficiência alimentar.
O que aproximou definitivamente os caminhos de Paulo, Marcelo e Tobias foi um fundo de investimento que, ao apostar nas duas empresas, deu forma a uma sinergia que já existia entre os negócios: de um lado, a lida do confinamento; do outro, a pesquisa e a genética.
Dessa sinergia nasceu a Ponta, que hoje possui um amplo portfólio de mais de 15 tecnologias. Muito além do TGC e do Intergado Efficiency, a empresa atende automação, rastreabilidade, painéis de gestão à vista, integração produtiva e contábil, e ainda conta com uma ferramenta própria de Business Intelligence, a Ponta Intelligence. E a inovação construída por essas cabeças não para por aí: num futuro muito próximo, chega a IA da Ponta, abrindo mais uma frente nessa trajetória.
O reconhecimento e a lição que segue atual
Em 2021, a DBO reconheceu Paulo entre os dez profissionais que mais contribuíram para a evolução do confinamento brasileiro na categoria tecnologia, no prêmio The Best Mind. Uma homenagem que ele valoriza justamente por vir de quem vive a atividade, e que carrega uma verdade sobre a qual gosta de refletir: naquela época, ele nem se via como um homem de tecnologia, mas como um profissional do agro com um problema sério para resolver.
Essa é a lição que segue guiando o seu trabalho, hoje que a inteligência artificial começa a acelerar a conexão entre genética, nutrição, gestão e mercado e as decisões do negócio.
Na visão de Paulo, a tecnologia amplifica o que já existe: onde o processo é sólido, ela multiplica o resultado; onde é confuso, multiplica o problema. Por isso a pergunta que abriu a sua carreira continua sendo a mais importante: qual dor estamos resolvendo? Porque nenhuma tecnologia que realmente transformou a pecuária desceu do laboratório para o campo. Todas nasceram no campo, da escuta atenta de quem vive a atividade.
Uma trajetória que ainda não terminou
De filho de pecuarista a CEO de uma das empresas de tecnologia mais respeitadas da pecuária, a trajetória de Paulo Dias é a de quem nunca precisou escolher entre o campo e a inovação, porque entendeu, desde cedo, que a segunda existe para servir ao primeiro. A tecnologia sempre foi o meio. Fazer melhor a vida de quem produz, e colocar o Brasil em um novo patamar de excelência na produção de proteína, sempre foi o fim.
É esse olhar, o de quem carrega ao mesmo tempo a memória da porteira e a visão do futuro, que segue guiando a Ponta até hoje.
E, se você quiser saber mais sobre essa jornada no detalhe, veja a entrevista completa do Paulo para o podcast Tracking Feed:
