A história da tecnologia na pecuária não começou onde você imagina 

*Por Paulo Dias, CEO da Ponta, aficionado por tecnologia e apaixonado pelo agro. 

história da tecnologia na pecuária

Não foi uma só. O pasto tropical, o melhoramento genético, a sanidade, a conectividade, a gestão individual do animal, a automação da nutrição, a rastreabilidade e, agora, a Inteligência Artificial mudaram a pecuária brasileira em momentos diferentes. O que todas têm em comum é que resolveram um problema real do campo. 

Duas ondas, dois problemas diferentes 

Qual foi a tecnologia que mais transformou a pecuária brasileira? Pergunta difícil. Porque foram várias, e cada uma chegou na hora certa, resolvendo um problema real que o campo estava vivendo. 

Deixa eu te contar como eu vi isso acontecer. Quando comecei a rodar o Brasil nos anos 2000, o pasto ainda batia na canela em muito lugar. O controle era caderneta, olhar experiente e fé. Funcionava até o momento em que as variáveis aumentaram e o negócio começou a escalar. E aí o campo foi pedindo, e a tecnologia foi chegando. 

Olhando de hoje para trás, eu enxergo duas ondas. 

A primeira resolveu quanto o Brasil consegue produzir. É a onda da biologia e do solo: forrageira adaptada, genética, sanidade. Foi ela que transformou um país de pastagem nativa no maior exportador de carne bovina do mundo. 

A segunda resolve quanto o Brasil ganha em cada boi. É a onda da informação: dado individual, automação, rastreabilidade, IA. Ela não aumenta o rebanho. Ela revela onde o dinheiro está vazando dentro do rebanho que você já tem. 

A primeira onda eu peguei já em movimento. A segunda eu ajudei a construir. Vou falar das duas, mas é honesto avisar de qual lado do curral eu estava. 

A primeira onda: o que deu escala ao Brasil 

Braquiária, a base que sustenta a pecuária até hoje 

Se for para eleger uma só, o consenso da pesquisa brasileira é a braquiária, a partir dos anos 1970. Sem ela, não existiria a escala que a gente tem hoje, e nada do que veio depois teria onde acontecer. 

E essa história não acabou. Mais de 60% das pastagens brasileiras hoje têm algum grau de degradação. Segundo a Embrapa, recuperar pasto degradado pode multiplicar por quatro a produção por hectare, saindo de cerca de 5 arrobas por hectare ao ano para até 20 em sistemas bem manejados, com capacidade de lotação duas a quatro vezes maior. É o maior ganho disponível no país, e ele está parado embaixo do pé do boi. 

É por isso que eu não consigo tratar pasto como assunto do passado. Foi a base do meu crescimento profissional, nos anos em que trabalhei na Matsuda e na DSM. A tecnologia mais transformadora da pecuária brasileira também é a mais subutilizada dela. 

O melhoramento genético e a reprodução assistida: a virada mais silenciosa 

O melhoramento genético e a reprodução assistida foram, pra mim, a virada mais silenciosa e mais poderosa. 

Aquela turma que foi lá na Índia buscar o Nelore, que acreditou no animal quando ninguém apostava, plantou uma semente que a gente está colhendo até hoje. Décadas de trabalho acumulado. 

Silenciosa porque o resultado nunca aparece no mesmo ano. A inseminação em tempo fixo permitiu concentrar nascimentos e usar genética avaliada em escala. A fertilização in vitro multiplicou a descendência de matrizes que antes deixavam poucos filhos na vida inteira. 

Essa é a toada: a gente não colhe o que planta hoje, colhe o que uma pessoa visionária plantou 20, 30, 60 anos atrás. 

A sanidade, que quase ninguém chama de tecnologia 

Em 29 de maio de 2025, na 92ª Assembleia Geral da Organização Mundial de Saúde Animal, em Paris, o Brasil foi reconhecido como país livre de febre aftosa sem vacinação. Cinquenta anos de trabalho para chegar lá. 

Isso destrava mercados que estavam fechados, como Japão e Coreia do Sul, que pagam mais e compram de pouca gente. E tira da conta a vacinação de mais de 244 milhões de bovinos e bubalinos, em cerca de 3,2 milhões de propriedades, com economia direta estimada pelo Ministério da Agricultura acima de meio bilhão de reais. 

Vacina e vigilância sanitária raramente entram nas listas de “tecnologia no agro”, porque não têm tela nem aplicativo. Mas nenhum software abre um mercado que a sanidade fechou. 

A segunda onda: o que gera margem 

A conectividade, que não é uma tecnologia. É o chão das outras 

Antes de falar de dado, preciso falar de sinal. 

Nada da segunda onda existe sem conectividade. Dado individual, automação de trato, rastreabilidade, IA: tudo isso pressupõe que a informação saia de onde ela nasce e chegue em algum lugar. E onde ela nasce é no curral, no brete, na balança, na fábrica de ração. Não na sede. 

Essa distinção é o ponto que mais me incomoda quando leio as estatísticas. O IBGE mostra que 81% das fazendas brasileiras têm acesso à internet, e o número parece ótimo. Mas o Mapa da Conectividade Rural, levantamento do Banco do Brasil de 2025, mostra o outro lado: apenas 25,3% das propriedades têm conexão em toda a área. 59,6% têm sinal só na sede, e 15,1% não têm acesso nenhum. Apenas 18,8% da área agrícola brasileira tem cobertura 4G ou 5G. 

Ou seja: o Brasil digitalizou o escritório da fazenda. Ainda não digitalizou a operação dela. Ter internet na sede e não ter no curral é a mesma coisa que ter balança e não ter onde anotar. 

E eu falo isso de dentro do problema, não de fora dele. A Ponta é uma empresa de software, vive de fazer informação circular na cadeia da pecuária, e o que eu vejo todo dia, em fazenda de todo tamanho, é que a parte difícil nunca é a tela. É a distância entre o boi e a tela. 

O escritório está bem servido: tem sistema, tem relatório, tem indicador, tem celular na mão do gestor. O curral, não. O curral tem poeira, barulho, chuva, gente com as duas mãos ocupadas segurando animal de meia tonelada e brete que não espera aplicativo carregar. O dado nasce nesse ambiente, e é nesse ambiente que ele se perde. 

Eu vivi isso na pele. Em 2006, quando levamos a coleta de dado individual para dentro do curral, não existia internet na fazenda. Nem computador. A gente teve que desenhar tudo para funcionar offline e sincronizar quando desse, porque esperar o sinal chegar não era opção. Foi limitação, e virou disciplina de projeto: sistema de curral que depende de sinal bom é sistema que para justamente no dia de movimento. 

O que mudou de verdade nos últimos anos foi a internet via satélite de baixa órbita. Ela não melhorou o que já existia, ela alcançou onde nada chegava. No mesmo levantamento, satélite já responde por 23,3% das conexões no campo, praticamente empatado com a fibra óptica, que está em 23,7%. Pela primeira vez, dá para pensar em decisão em tempo real dentro do curral, e não em dado que sobe à noite. 

Mas sinal melhor não fez o gargalo sumir. Eu costumo dizer que vender software para o agro é a parte fácil. Implantar é que é difícil. E o que separa uma coisa da outra quase nunca é tecnologia: é sinal que não chega no brete, energia que oscila, equipamento que não aguenta o ambiente, equipe que não pode parar o manejo para digitar. 

Essa é a ponte que a gente ainda está construindo, e eu não vou fingir que ela está pronta. Conectar o boi do curral ao escritório da fazenda segue sendo o maior desafio prático da digitalização da pecuária brasileira. Não é o algoritmo. Não é a nuvem. É o último quilômetro, que na pecuária é o último metro: o que separa o animal do registro. 

E é por isso que eu trato conectividade como infraestrutura, não como inovação. Ninguém comemora energia elétrica na fazenda, mas ninguém opera sem ela. Conectividade está virando a mesma coisa. Quem não resolver isso vai assistir a próxima década de fora, não por falta de tecnologia, mas por falta de sinal para ela funcionar. 

O GPS e o sensoriamento remoto 

O GPS e o sensoriamento remoto trouxeram a gestão do pasto para outro nível. Pela primeira vez, dava pra enxergar a fazenda inteira sem andar nela. Pra quem rodava estrada de chão com o tanque reserva de gasolina no porta-malas, isso foi revolução. 

E não era só economia de estrada. Passou a dar para saber a área real de cada piquete, acompanhar a situação da pastagem ao longo do ano e ajustar a lotação ao que o pasto está entregando naquele mês. Foi aqui que a primeira onda encontrou a segunda: o dado começou a dizer o que a forrageira estava de fato produzindo. 

A gestão individual do animal 

Os sistemas de gestão individual colocaram o dado de cada boi no centro da decisão. Não da média do lote. Do animal. 

A diferença entre a média do lote e o animal é maior do que parece. Um lote com média boa esconde animais muito acima e muito abaixo dela, e são justamente os de baixo que consomem dieta sem devolver ganho. A média é uma conta que conforta e engana ao mesmo tempo. 

Quando comecei, em 2005, não dava mais para gerir só por lote: eu precisava tirar cada boi do lote e enxergar o resultado daquele animal sozinho. O problema era estrutural antes de ser técnico. Um servidor custava quase 200 mil reais, e nenhuma fazenda tinha estrutura para rodar aquilo em banco de dados. Muita gente me dizia que não tinha como fazer. 

Foi daí que nasceu o TGC, automatizando primeiro a identificação de cada animal: leitura de brinco, entrada e saída do curral registradas uma a uma. Antes disso, muita genética boa se perdia dentro do confinamento, porque não havia rastreabilidade do que tinha acontecido com aquele animal lá atrás. Hoje é o contrário: dá para separar, animal por animal, o que veio da genética e o que veio do manejo daquele ciclo. 

Foi a briga da minha vida. E é a parte da história em que eu botei a mão. 

E é aqui que eu vejo o maior espaço de crescimento da pecuária brasileira daqui para frente. Não se muda o que não se controla. Só identificando o animal superior é que a gente melhora o rebanho, ciclo após ciclo. 

Os números do curral não deixam dúvida. Mesmo lote, mesma dieta, mesmo manejo: tem animal entregando 6 arrobas e tem animal entregando 10. Tem boi que transforma 100 quilos de matéria seca em uma arroba e tem boi que precisa de 180 para entregar a mesma arroba. Mesmo cocho, mesma água, mesmo dia de chuva. Toda essa amplitude desaparece dentro da média, e é exatamente ali que está o dinheiro que o confinamento deixa na mesa. 

Quando você enxerga o animal, e não o lote, essa diferença deixa de ser prejuízo e vira critério: dá para selecionar, descartar e comprar melhor no ciclo seguinte. É melhoria que acumula, igual à do melhoramento genético, só que com resposta no mesmo ano. 

E tem um ponto sobre o qual a gente ainda fala pouco: isso é sustentabilidade na prática. Produzir a mesma arroba com 80 quilos a menos de matéria seca significa menos insumo, menos área e menos emissão por quilo de carne. Não é discurso ambiental, é eficiência medida animal por animal. Que por acaso é a coisa mais sustentável que a pecuária sabe fazer. 

A automação da nutrição e o dado que ninguém queria ver 

A dieta que sai do papel não é a dieta que chega no cocho. Pesagem, mistura, carregamento e distribuição: cada etapa tem seu desvio, e o que parece irrelevante em um trato vira dinheiro ao longo do giro. 

Quando a gente começou a medir isso dentro das operações que atendia, o número que apareceu foi duro: a eficiência real das fábricas de ração rodava perto de 60%, não os 100% que todo mundo achava. É medição nossa, de chão de fábrica, não estatística de mercado. E foi um susto grande para muita gente, inclusive para mim. Muito confinamento morria pela boca do boi sem saber o motivo. 

Automatizar a batida foi o que resolveu isso. Antes, o custo do boi vinha de uma dieta média por baixa de estoque: o sistema rateava entre os lotes o que tinha entrado no estoque, sem saber a fórmula real de cada trato. Com a automação, cada batida vira um registro, a fórmula que de fato foi fabricada, com o custo real daquele lote de ração, ligada ao curral que a recebeu. 

É esse rastreio, trato a trato, que permite apropriar o custo real da dieta a cada animal e chegar ao resultado individual dele no fim do ciclo. E isso deixou de ser assunto de nicho: pelos levantamentos da DBO, o Brasil saiu de 4,75 milhões de bois terminados em confinamento em 2019 para mais de 9 milhões em 2025. Em escala assim, um desvio de dieta que ninguém enxerga não é detalhe. É prejuízo com giro anual. 

A rastreabilidade e os protocolos de qualidade 

A rastreabilidade e os protocolos de qualidade abriram mercados que antes eram inacessíveis, e hoje são o que mantém esses mercados abertos. O mercado externo não compra boi. Compra informação sobre o boi. 

Rastrear é conseguir responder, com registro, de onde veio o animal, por onde passou e o que recebeu. E as exigências vêm aumentando, não diminuindo. A China, que sozinha absorve mais de 47% do volume que exportamos, já exigiu animais rastreáveis e abatidos antes dos 30 meses, e em visita técnica ao Brasil sinalizou que passará a exigir rastreabilidade completa desde o nascimento, com prazo para grandes e médios operadores em dezembro de 2026. A União Europeia caminha na mesma direção: a regra antidesmatamento cobra o histórico completo do animal, do nascimento ao abate, com prazo em setembro de 2026. Não é tendência. É calendário. 

A rastreabilidade também é questão de segurança alimentar, não só de acesso a mercado: é o que permite localizar a origem e o histórico sanitário de um animal rapidamente, numa emergência, sem depender de rastrear lote por lote. 

Muita gente já pratica rastreabilidade individual por escolha própria, porque ela é a base de qualquer gestão séria do rebanho. O Sisbov é a exigência mínima para quem exporta, não o teto do que a rastreabilidade pode fazer pela operação. O foco real é a gestão do ativo mais caro da pecuária, o boi, não só o cumprimento de uma exigência de mercado. 

E é por isso que o PNIB importa. Pelo plano estratégico do Ministério da Agricultura, a identificação individual passa a ser obrigatória em etapas: começa pelos nascidos a partir de 2027, avança até cobrir todo o rebanho nacional, estimado em 238 milhões de cabeças, até 31 de dezembro de 2032, e a partir de 1º de janeiro de 2033 boi não identificado simplesmente não se movimenta. Quem trata isso como problema de 2032 vai descobrir tarde que o problema é de agora, porque o bezerro que nasce em 2027 é o boi que se move depois. 

A Inteligência Artificial amplifica o que já está lá 

Agora a Inteligência Artificial começa a conectar tudo isso, genética, nutrição, gestão, mercado, em velocidade e escala que ainda estamos aprendendo a explorar. 

E aqui mora o meu maior incômodo, que já falei por aqui: a IA amplifica o que já está lá. Processo sólido, ela multiplica resultado. Processo confuso, ela multiplica o estrago, só que mais rápido. 

Acho que a maior revolução da IA não vai ser a tecnologia em si. Vai ser a revisão dos processos, de olho na qualidade do dado. Porque a informação vai passar a ser consumida em escala, não só por quem decide o negócio, mas por quem executa cada manejo no dia a dia. E quem executa pode ser mal direcionado pela IA se a base que alimenta ela não for confiável e bem estruturada. 

O mercado hoje repete que o desafio é transformar dado em decisão. Concordo, mas acho a frase pequena demais. O desafio é garantir que a decisão que desce até o curral tenha sido construída sobre dado que aguenta o peso dela. Isso é revisão de processo, e reflete direto na produtividade e na lucratividade do agro brasileiro. 

Tem um detalhe que amarra tudo o que eu falei aqui: a IA amplifica o que já está lá, mas boa parte do que acontece no curral brasileiro ainda não está em lugar nenhum. Não foi registrado, não subiu, não virou dado. Enquanto o último metro entre o animal e o registro não estiver resolvido, a IA vai continuar decidindo com a metade da fazenda que já é digital, e ignorando a metade que ainda é memória de quem estava lá. Não é problema de modelo. É problema de chão. 

A tecnologia que transforma vem do campo para o laboratório 

Ao longo do tempo, o que eu aprendi é que cada tecnologia que realmente transformou a pecuária resolveu um problema real. Não veio do laboratório para o campo. Veio do campo para o laboratório. 

A braquiária virou revolução porque o pasto tropical precisava dela.O Nelore pegou porque aguentava o nosso clima. O satélite de baixa órbita pegou no campo porque a fibra nunca ia chegar lá. A gestão individual nasceu porque a média do lote parou de responder. A automação da nutrição nasceu porque a conta do cocho não fechava. Nenhuma delas começou numa apresentação de slide. 

Antes de ser da tecnologia, eu era do agro. Nasci na fazenda, me criei batendo porteira como consultor e trabalhei ao lado das mentes mais brilhantes na academia. Eu vivi e entendi a dor da pecuária, para a partir disso ver a tecnologia como o caminho de solução para os problemas. 

E o que vem por aí? Tenho minhas apostas. Mas a régua continua a mesma: a tecnologia que vai transformar os próximos anos já está sendo desenvolvida por quem vive e enxerga de verdade o que o agro precisa para resolver os problemas de hoje e de amanhã. 

Fontes dos dados citados: 

  • Exigências de rastreabilidade da China: BeefPoint 
  • Regra antidesmatamento da União Europeia e prazo: Canal Rural 

O dado de eficiência real das fábricas de ração é medição própria da Ponta, levantada nas operações atendidas, e não corresponde a estatística pública de mercado. 

*Sobre Paulo Dias: 

Baiano, filho de pecuarista por legado, aficionado por tecnologia por vocação e apaixonado pelo agro por propósito, Paulo Dias é CEO da Ponta, a maior plataforma brasileira de tecnologia e gestão da informação na cadeia da pecuária, presente em 9 países e gerindo mais de 8 milhões de cabeças por ano, da pesquisa à produção comercial. Zootecnista (ESUCARV), Mestre pela UNESP, especialista em Controladoria (FGV) e Gestão Estratégica (FDC), com reconhecimento nacional pela DBO como TOP 10 profissionais que evoluíram a atividade de confinamento no Brasil. 

Em 2006, quando a fazenda não tinha computador nem internet, levou a coleta de dado individual do animal para dentro do curral com o TGC. Em 2008, criou a primeira automação de nutrição brasileira, antes de o mercado saber que precisava dela. Desde então, se dedica a construir pontes entre o boi e o bit. 

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