Profissionalização da gestão de pessoas na pecuária: quando experiência, tecnologia e dados trabalham juntos 

cris yukie

Por Cristina Yukie Ichiki de Carvalho*, Diretora de Operações da Ponta Agro 

Desde a minha infância, uma das coisas que me chamava a atenção era a relação das pessoas com o trabalho no campo. Meus pais são agricultores e cresci vivenciando uma relação de respeito, amor, cuidado e troca entre as pessoas e tudo aquilo que o campo pode nos oferecer. 

Quando comecei a atuar na Ponta, me aproximei da pecuária e novamente do campo. Essa conexão ganhou ainda mais força e vem se transformando em admiração. E particularmente, me move e vai ao encontro do meu propósito! 

A pecuária exige presença, disciplina, continuidade e resiliência. Os animais precisam de cuidados diários, os ciclos produtivos são longos e o resultado de uma decisão tomada hoje, muitas vezes, só será percebido meses ou gerações adiante.  

Existe muito conhecimento envolvido nessa rotina. Um conhecimento construído pela experiência, pela observação e, frequentemente, transmitido entre gerações. E maior que isso, transmite a paixão e o propósito. 

É justamente por reconhecer o valor desse conhecimento que considero que a profissionalização da gestão rural precisa colocar as pessoas no centro da discussão. 

Em um momento em que tecnologia, ciência e um volume cada vez maior de dados e informações chega ao campo, o desafio não é substituir a experiência construída ao longo dos anos. É combiná-la com novas ferramentas, para que esse conhecimento ganhe escala, gere mais valor e contribua para uma gestão cada vez mais qualificada. 

O conhecimento do campo também é um ativo da fazenda 

Uma parcela importante do conhecimento das operações agropecuárias está nas pessoas e é repassado por gerações.  

Quem conhece o comportamento do rebanho, percebe uma alteração no consumo ou no comportamento animal, identifica rapidamente um problema no manejo, conhece as características de determinado pasto ou as particularidades de uma fazenda, acumula um conhecimento prático que dificilmente está integralmente registrado em um sistema. E esse conhecimento tem enorme valor. 

Uma empresa amadurece quando consegue transformar conhecimento individual e prático em capacidade organizacional. Na fazenda, isso significa preservar aquilo que a experiência ensinou, criar formas de compartilhar e combiná-lo com informações cada vez mais precisas sobre a operação, sobre o negócio.  

Gerir a fazenda como uma empresa não significa retirar do campo aquilo que ele tem de mais valioso. Significa fazer com que o conhecimento deixe de depender exclusivamente da memória ou da presença de determinadas pessoas, e passe a fazer parte da capacidade de entrega da organização. E a tecnologia pode ser uma importante aliada nessa jornada. 

Quanto mais tecnologia chega ao campo, mais precisamos desenvolver pessoas 

No artigo anterior sobre transformação digital, tratei de uma ideia que considero fundamental: a tecnologia não cria maturidade de gestão, ela amplifica a maturidade que encontra

Mas existe uma dimensão adicional a essa transformação: a tecnologia também aumenta a necessidade de desenvolver pessoas. 

Quando uma fazenda passa a utilizar sistemas de gestão, identificação eletrônica, balanças automatizadas, sensores, aplicativos ou ferramentas de inteligência artificial, não está apenas incorporando novos equipamentos ou softwares: está modificando a forma como o trabalho acontece e cria a oportunidade de gerar novos resultados.  

Uma atividade que antes consistia em registrar um dado pode passar também a exigir interpretação e análise.  

Dessa forma, quem acompanhava determinada rotina passa a ter acesso a alertas, comparações e indicadores. O gestor passa a enxergar desvios com mais rapidez e a tomar decisões com mais consistência, baseado em informação e conhecimento gerados, o que muda as competências necessárias dentro da fazenda. 

Não significa que todos precisarão se tornar especialistas em tecnologia ou em análise de dados. Significa que cada profissional precisa compreender melhor por que aquela informação está sendo coletada, como sua atividade interfere no resultado e como utilizar o dado para aprimorar a sua jornada de trabalho. 

Esse talvez seja um dos grandes desafios da transformação digital, não somente no campo: desenvolver as pessoas para que elas avancem junto com a tecnologia e consigam colher bons frutos desta relação

Dado só gera valor quando encontra conhecimento e ação 

Imagine uma tecnologia que identifica uma alteração no desempenho de um animal. O dado pode estar correto, o sistema pode funcionar perfeitamente e o alerta pode chegar rapidamente.  

Mas o que acontece depois? Quem interpreta essa informação? Quem consegue relacioná-la ao manejo, à alimentação, à sanidade ou às condições daquele animal e do lote a que pertence? Quem decide o que fazer? E quem acompanha se a ação produziu o resultado esperado? 

É nessa sequência que o valor é criado. 

A tecnologia reduz a distância entre o que acontece na operação e os resultados que podemos obter, aumenta a amplitude do que conseguimos enxergar e mensurar. Mas são as pessoas que interpretam, contextualizam, decidem e tomam ações. E os dados se tornam ainda mais valiosos quando encontram a experiência de quem conhece a operação, pois se transformam em informação e geram conhecimento.  

Um indicador pode mostrar um desvio. A experiência e o conhecimento do negócio ajudam a compreender suas possíveis causas. Da mesma forma, uma percepção construída pela experiência pode ser confirmada, dimensionada ou comparada a partir dos dados. A gestão mais madura não escolhe entre experiência e evidência. Ela combina as duas. É nesse encontro que a tecnologia pode valorizar a trajetória profissional de quem está no campo e potencializa a sua oportunidade de crescimento. 

Quem antes realizava uma atividade predominantemente operacional pode passar a compreender indicadores. Quem coletava informações pode entender como elas influenciam as decisões. Quem acompanha um processo pode desenvolver capacidade de análise, identificar desvios e propor para melhorias que irão modificar uma rotina. 

A tecnologia pode tornar o trabalho mais qualificado. Mas isso não acontece automaticamente. Cabe à gestão e às lideranças criarem condições para que as pessoas avancem junto com a transformação da operação e da transformação digital, por meio de capacitações, gerando oportunidades de aprendizagem, tornando explícito o propósito das mudanças. Ensinar apenas como utilizar uma tecnologia é insuficiente. 

As pessoas precisam compreender o que se aprimora no processo, por que o dado importa, que decisão ele pode tomar, como aquilo que fazem contribui para o resultado do negócio e no propósito do seu trabalho.  

Essa é a profissionalização que engaja, que move as pessoas a contribuírem para algo maior.  

Profissionalizar a fazenda também é sobre desenvolver pessoas 

Ao longo dos textos que venho produzindo, tenho tratado sobre a maturidade da gestão no agro por diferentes perspectivas.  

Falamos sobre a importância da governança para transformar estratégia em execução. Depois, avançamos para a gestão da informação e o desafio de transformar dados em conhecimento para evoluir a maturidade de gestão. Mais recentemente, discutimos a transformação digital e porque a tecnologia encontra terreno mais fértil quando a gestão já possui fundamentos sólidos. 

Entretanto, existe um elemento comum e transversal a todos esses temas: as pessoas

São elas que executam os processos, registram os dados, interpretam informações, percebem aquilo que os indicadores ainda não mostram, tomam decisões e assumem a responsabilidade para implementar mudanças e melhorias. 

Por isso, a profissionalização da gestão rural não pode ser medida apenas pela qualidade dos sistemas, pela quantidade de indicadores ou pela sofisticação das tecnologias incorporadas. Também precisa ser medida pela capacidade da organização de preservar conhecimento, desenvolver competências e preparar suas pessoas para novas formas de trabalhar e gerir o negócio. 

O conhecimento transmitido ao longo de gerações continua sendo um patrimônio enorme da pecuária. A oportunidade que temos é conectá-lo a novas informações, tecnologias e métodos de gestão, pois, quando experiência, conhecimento de gerações e tecnologia passam a trabalhar juntos, a fazenda aumenta sua capacidade de aprender, decidir, evoluir e gerar novos resultados. 

Talvez esse seja um dos grandes desafios da gestão de pessoas na pecuária: não apenas preparar profissionais para utilizar novas tecnologias, mas fazer da transformação tecnológica uma oportunidade para ampliar o conhecimento, a autonomia e o valor de quem dedica sua trajetória ao campo. Porque os dados podem mostrar cada vez mais sobre a fazenda. Mas são as pessoas que transformam aquilo que os dados mostram em decisões, aprendizado e resultados. E são as pessoas que transmitem e perpetuam os comportamentos e a cultura do agro, que percorrem gerações trazendo suas tradições e também que permitem trazer a inovação para o campo.  

Quanto mais conheço as pessoas que fazem a pecuária acontecer todos os dias, mais admiro a dedicação, a responsabilidade, a paixão e o propósito presentes no campo.  

A tecnologia amplia o valor dessa trajetória. 

*Sobre Cristina Yukie: Engenheira de Alimentos, pós-graduada em Finanças e Controladoria, ex-Gerente Administrativa Financeira da Falconi, com 17 anos de experiência em Gestão Empresarial e de Projetos e Liderança e Desenvolvimento de Times.

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