O que a tecnologia não substitui, e por que isso virou vantagem competitiva

Por Paulo Dias, CEO da Ponta, aficionado por tecnologia e apaixonado pelo agro. 

Nos últimos anos, o agronegócio assistiu a um salto raro: inteligência artificial embarcada, capacidade de processamento que ridiculariza a década passada e uma conexão de internet que finalmente chega à porteira. Coletamos, cruzamos e interpretamos dados em volumes e velocidades que, há pouco tempo, eram inviáveis. A informação para a decisão está, hoje, a um clique, ou a um alerta automático. 

E, mesmo assim, sigo convencido de que nunca foi tão importante conhecer profundamente os processos do próprio negócio. 

O paradoxo da abundância de dados 

Há uma armadilha pouco discutida na revolução tecnológica que vivemos: confundir disponibilidade de dado com qualidade de decisão. 

Um dashboard bem montado não compensa um processo mal desenhado. Um modelo de IA não corrige um indicador que mede a coisa errada. E uma decisão rápida, tomada sobre uma base conceitual frágil, deixou de ser apenas um erro pontual. Virou um risco sistêmico, porque sua escala e velocidade também aumentaram. 

Ou seja, a tecnologia amplifica. O que ela amplifica é o que já estava lá. Se o processo é sólido, ela multiplica resultado. Se o processo é confuso, ela multiplica o estrago, só que mais rápido. 

A tecnologia substitui a qualidade dos processos no confinamento? 

Não substitui. A tecnologia amplifica o que já existe na operação: processo sólido vira resultado multiplicado, processo confuso vira estrago em escala e velocidade maiores. 

Um exemplo do chão de curral 

Vou ser bem direto. Acompanhando clientes na operação de confinamento, vejo o tempo todo decisões importantes sendo tomadas com base em análises que já deixaram de refletir a realidade do processo. 

Um exemplo prático. Uma pergunta aparentemente simples: como devo agrupar os animais por raça no confinamento? 

Isso desdobra uma cadeia de perguntas que poucas operações conseguem responder com segurança: 

1º. A raça, hoje, realmente faz a diferença que fazia há dez anos? Nelore e Anelorado se comportam de forma distinta o suficiente para justificar o agrupamento que estamos fazendo? 

2º. O processo de coleta dessa informação está atualizado? O pessoal do curral sabe coletar essa variável de forma correta e consistente? 

3º. Quem é o dono dessa informação dentro da fazenda? Quem responde pela qualidade dela? 

4º. Estamos coletando a variável certa, ou estamos coletando aquela variável porque sempre coletamos? 

Quando paro para responder essas perguntas dentro das operações, confirmo no chão da fazenda o que os dados já me dizem há anos: a pecuária mudou muito nos últimos cinco anos, mas o processo de coleta de dados continua o mesmo. 

A gestão de dados no confinamento acompanhou a evolução da pecuária? 

Não acompanhou. A maior parte das operações continua medindo as mesmas variáveis de 2020, com a mesma metodologia, executada por equipes que nunca foram treinadas para entender o porquê de cada dado coletado. 

Continuamos medindo o que era importante para a operação de 2020, com a metodologia de 2020, executada por equipes que trabalham do mesmo jeito de 2020 e que nunca foram treinadas sobre porque aquele dado existe. 

Tem muito empresário rural investindo pesado em IA, painéis e sistemas, e esquecendo de investir no seu pessoal e de atualizar seus processos. É o mesmo que comprar um jatinho, esquecer de contratar o piloto e não botar combustível. 

A pecuária intensiva já é outra 

A atividade pecuária intensiva sofreu transformações profundas: 

  1. Mudou o tipo de animal que entra no confinamento. 
  1. Mudou o modelo de gestão: saímos do tradicionalismo familiar para uma gestão empresarial, com toda a dinâmica que isso impõe. 
  1. Mudou o escopo: da porteira para dentro já não basta. Da porteira para fora, com novas parcerias, novos modelos de negócio, gestão de risco, exige tanta atenção quanto a operação. 
  1. Mudou a mão de obra: as universidades já não entregam o profissional como antigamente. Hoje precisamos formar internamente, e isso custa tempo e dinheiro, diante de um mercado cada vez mais competitivo. 

O que mudou na pecuária intensiva nos últimos cinco anos? 

Mudou o tipo de animal, o modelo de gestão, o escopo da operação e o perfil da mão de obra. Com isso, a gestão de dados no confinamento passou a exigir processos, responsáveis e variáveis completamente diferentes dos que sustentavam a operação anterior. 

E, do ponto de vista de gestão, pulamos do GADO para o DADO. Mas cuidado: já não basta ter animal só ganhando peso. Precisamos de eficiência de ponta a ponta, do animal à produção. Onde está a genética em que o menor consumo de matéria seca vira diferencial de lucro? Onde a eficiência da fábrica ou do trato está comendo a margem? 

Pra fechar a conta tem que conectar genética e produção: animal eficiente mais processo eficiente é igual a menor risco e maior previsibilidade. 

O papel do CEO mudou. E ficou mais difícil 

Por muito tempo, o nosso trabalho como gestores foi buscar a informação. Hoje, a informação nos busca. O gargalo agora é outro: se tornou conceitual. 

Quais variáveis são causa e quais são consequência? Onde está a margem real? O que é ruído e o que é sinal? Que decisão pode ser delegada à máquina e qual exige o julgamento humano, aquele lastreado em regra de negócio, em contexto, em histórico? 

Qual é o principal gargalo do gestor de confinamento hoje? 

O gargalo deixou de ser operacional e passou a ser conceitual: identificar quais variáveis são causa e quais são consequência, onde está a margem real, e o que ainda exige julgamento humano antes de qualquer delegação à tecnologia. 

O CEO de hoje precisa, mais do que nunca: 

  • Revisar o que ainda precisa ser medido: variáveis que eram críticas há cinco anos podem ter virado ruído. Outras, que nem coletávamos, podem ser hoje o verdadeiro vetor de margem. 
  • Atribuir um dono para cada dado crítico: sem dono, não há qualidade. Sem qualidade, não há decisão. Há aposta. 
  • Treinar e retreinar a operação que coleta: o peão de curral, o operador de balança, o tratador. Eles são os sensores humanos do sistema. Se não entendem o porquê do dado, o dado nasce torto. 
  • Reformular os processos vitais antes de automatizá-los: automatizar um processo ruim é acelerar a ineficiência. 
  • Definir as perguntas certas antes de pedir as respostas à tecnologia: a IA é excelente em responder e péssima em decidir o que vale a pena perguntar. 
  • Conectar tecnologia ao resultado financeiro: inovação que não aparece na margem é despesa, não investimento. 

O lado bom de tudo isso 

Há uma boa notícia. Com as novas tecnologias, ficou prazeroso refazer os processos. O foco é cuidar do que importa, a regra do negócio, em vez de desenvolver planilhas, testar ferramentas ou brigar com infraestrutura. 

Como preparar a operação antes de adotar uma nova plataforma de gestão? 

Antes de adotar qualquer nova plataforma, é necessário revisar o que ainda faz sentido medir, atribuir responsáveis pela qualidade de cada dado e capacitar as equipes operacionais sobre o propósito de cada informação coletada. 

Antes da próxima plataforma, antes do próximo modelo de IA: revise os processos. Isso é o que vai garantir que a tecnologia certa apoie de fato a tomada de decisão. Encare como tarefa de liderança, e não como tarefa de TI ou de consultoria. 

A tecnologia evolui. Mas é o entendimento profundo do que fazemos, e a coragem de mudar o que parou de fazer sentido, que separa a fazenda que cresce da que apenas se moderniza. 

E, para fechar à boa moda do agro: não podemos deixar o boi conduzir a boiada, senão vai sumir com a corda. 

Sobre Paulo Dias:

Baiano de Mata São João de nascença, filho de pecuarista por legado, aficionado por tecnologia por vocação e apaixonado pelo agro por propósito, Paulo Dias é CEO da Ponta, a maior plataforma brasileira de tecnologia e gestão da informação na cadeia da pecuária presente em 9 países, gerindo mais de 8 milhões de cabeças por ano, da pesquisa à produção comercial. 

Em sua busca constante por conhecimento se formou Zootecnista (ESUCARV), Mestre pela UNESP, especialista em Controladoria CPM (FGV) e Gestão Estratégica (FDC/PAEX), com reconhecimento nacional pela DBO, como TOP 10 profissionais que evoluíram a atividade de confinamento no Brasil.  

Em 2006, quando a fazenda não tinha computador e nem internet, Paulo levou a coleta dado individual do animal para dentro do curral com o TGC e, em 2008, criou a primeira automação de nutrição brasileira antes do mercado saber que precisava dela e somou tecnologia à sabedoria do campo para evolui a maturidade de gestão do negócio rural. Paulo, desde 2006, se dedica em construir pontes entre o boi e o bit.

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