Testar fêmeas para Eficiência Alimentar: por que as matrizes não podem ficar de fora 

As Provas de Eficiência Alimentar vêm ganhando cada vez mais espaço no Brasil e no mundo. Criadores das mais diversas raças e regiões já entendem o valor de identificar touros com eficientes e produtivos. Mas, na maioria dos rebanhos, as fêmeas seguem sendo avaliadas por peso, escore corporal e desempenho reprodutivo, ficando de fora da prova de Eficiência Alimentar. 

Ocorre que as fêmeas não são apenas receptoras de genética. As matrizes ficam anos no plantel, disseminam sua genética  para filhos e filhas e representam a base do sistema de cria. Quando uma fêmea é ineficiente, ou seja, consome mais do que deveria para o seu nível de desempenho, esse custo não aparece em uma única nota fiscal. Ele se acumula silenciosamente, mês após mês, ao longo de toda a vida produtiva do animal, e ainda, se perpetua em seus filhos. 

Portanto, testar fêmeas para Eficiência Alimentar não é um detalhe técnico. É metade do programa de melhoramento genético, e deixar esse dado de fora tem custo real. 

O peso da mantença que precisa estar na ponta do lápis 

Na pecuária de corte, os custos com alimentação respondem por até 90% do custo total de produção. Esse número é amplamente discutido quando o assunto é produção de animais para abate. Mas e o custo de manter uma matriz no rebanho de cria por cinco, seis, sete anos? 

Diferente dos touros, que têm uma vida útil mais curta no plantel e são logo substituídos, as matrizes ficam. E enquanto ficam, comem. Uma fêmea com CAR positivo, que consome mais do que o esperado para o seu desempenho, representa uma sangria no resultado que raramente é percebida no dia a dia da fazenda. 

Para ter uma ideia da dimensão do problema: um animal verdadeiramente eficiente pode consumir até 30% menos alimento que um animal comum, mantendo o mesmo desempenho.  

Em um rebanho de 100 matrizes, com anos de permanência no plantel, a diferença acumulada entre fêmeas eficientes e ineficientes representa um volume expressivo de insumos e de dinheiro. 

Quanto mais tempo o animal permanece no plantel, maior o impacto da Eficiência Alimentar sobre o resultado da fazenda. E nenhuma categoria fica mais tempo do que as matrizes. 

A fêmea como transmissora de genética, não apenas como receptora 

Existe um equívoco comum na hora de pensar sobre melhoramento genético para Eficiência Alimentar: a ideia de que basta selecionar touros eficientes e o problema está resolvido. O touro traz genética de um lado, mas a matriz traz do outro e a progênie herda 50% de cada. 

Uma matriz com CAR negativo transmite essa característica para seus filhos e filhas. Ao incluir as fêmeas na prova de Eficiência Alimentar, o criador passa a identificar suas fêmeas eficientes a ter dados reais sobre o potencial genético de cada animal e pode acelerar o progresso genético do rebanho de forma expressiva, com maior intensidade de seleção 

Dessa maneira, ignorar as fêmeas na avaliação de Eficiência Alimentar é, na prática, deixar metade do rebanho fora do programa de melhoramento. 

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Eficiência Alimentar e reprodução: uma relação que precisa ser entendida 

Aqui está o ponto que separa uma abordagem superficial de uma abordagem séria sobre testar fêmeas para Eficiência Alimentar: a relação entre eficiência alimentar e desempenho reprodutivo vem sendo estudada, e os resultados são promissores e importam muito na hora de definir critérios de seleção. 

A ciência tem avançado nessa frente. Um estudo recente da UNESP Jaboticabal (Silva, 2025) avaliou quase 200 novilhas Nelore separadas pelo valor genético para CAR e analisou se a seleção para Eficiência Alimentar prejudica a fertilidade dessas fêmeas. O resultado é animador: as novilhas mais eficientes não apresentaram prejuízo nos principais indicadores reprodutivos. Isso reforça que a seleção para Eficiência Alimentar pode caminhar junto com a eficiência reprodutiva, desde que o criador trabalhe com dados completos das duas frentes. 

Outro estudo que reforça essa perspectiva é o de Góis e colaboradores (2025), que avaliou mais de 1.200 novilhas Nelore jovens, entre 12 e 16 meses, submetidas a testes de Eficiência Alimentar. A hipótese investigada era de que fêmeas mais eficientes poderiam apresentar menor reserva energética corporal, o que prejudicaria a reconcepção após o primeiro parto em primíparas precoces. Os resultados, no entanto, não confirmaram essa preocupação: não foram observadas correlações fenotípicas e genéticas significativas entre o CAR e características reprodutivas como dias até a primeira e segunda concepção, duração das gestações e probabilidade de segundo parto. A seleção para Eficiência Alimentar não afetou a reconcepção dessas fêmeas, o que amplia a confiança do criador em trabalhar com esse critério de seleção sem receio de comprometer o desempenho reprodutivo do rebanho. 

Por que isso importa? Porque selecionar fêmeas exclusivamente pelo CAR, sem considerar o desempenho reprodutivo, pode resultar em novilhas de maturação tardia, o que penaliza diretamente o sistema de cria e compromete a eficiência econômica do rebanho como um todo. 

A mensagem é clara: Eficiência Alimentar e eficiência reprodutiva precisam ser avaliadas em conjunto, não de forma isolada. Ter dados completos sobre as fêmeas: consumo, ganho de peso e desempenho reprodutivo é o que permite tomar decisões de seleção realmente bem embasadas. 

Como testar fêmeas para Eficiência Alimentar? 

A boa notícia é que testar fêmeas para Eficiência Alimentar não exige uma estrutura completamente diferente da prova para machos. A lógica é a mesma: período mínimo de avaliação, ambiente controlado, medição individual de consumo e ganho de peso, e cálculo dos indicadores de eficiência. 

A principal diferença está nos cuidados de manejo necessários para garantir que o ambiente de avaliação não interfira no desempenho das fêmeas, especialmente no caso de novilhas em fase de desenvolvimento.  

Desse modo, definir bem o grupo contemporâneo, a dieta e o período de adaptação são essenciais para que os dados gerados sejam confiáveis. O calendário de provas deve se adequar ao manejo reprodutivo da fazenda, de forma que as fêmeas sejam avaliadas antes do desafio reprodutivo, ou, segundo o manual de orientação de provas, quando gestantes, no terço inicial da gestação.  

Tecnologias como o Intergado Efficiency, tornam esse processo mais preciso e menos trabalhoso. O cocho eletrônico registra automaticamente o consumo individual de cada animal a cada visita. A balança de pesagem voluntária, instalada junto ao bebedouro, pesa as fêmeas diversas vezes ao dia, sem necessidade de manejo, sem estresse. O resultado é um relatório completo com CAR, GPR e Conversão Alimentar de cada animal avaliado. 

No final da prova, o criador tem em mãos um dado real sobre o potencial de cada matriz, não uma estimativa, não uma inferência baseada no pai. Um dado individual, mensurável e comparável. 

O mercado já percebeu e está valorizando 

Nos plantéis de genética mais avançados do país, matrizes com CAR negativo e bom desempenho já estão sendo valorizadas de forma diferenciada. O comprador de genética, cada vez mais informado, sabe que uma matriz eficiente não é só um animal que custa menos para manter: é um veículo de transmissão de uma característica de alto valor econômico para as próximas gerações. 

Além disso, rebanhos que incluem fêmeas nas provas de Eficiência Alimentar constroem uma base de dados mais robusta para avaliação genômica. Quanto mais animais avaliados, machos e fêmeas, maior a confiabilidade das DEPs calculadas e maior o impacto do programa de melhoramento ao longo do tempo. Os programas de melhoramento genético já mostram que criatórios que testam machos e fêmeas avançam no progresso genético para eficiência alimentar, demonstrando o impacto da maior pressão de seleção em ambos os lados do direcionamento de acasalamentos. 

O Brasil já ocupa posição de destaque mundial no volume de dados de Eficiência Alimentar, com cerca de 80 mil animais avaliados em provas conduzidas pelo Intergado Efficiency. Mas a inclusão sistemática de fêmeas ainda é uma fronteira aberta. Quem avançar primeiro nesse caminho, sai na frente. 

Conclusão 

Testar fêmeas para Eficiência Alimentar é, antes de tudo, uma decisão estratégica. É reconhecer que o programa de melhoramento só funciona de forma completa quando os dois lados da equação genética são avaliados com rigor. 

Uma matriz eficiente custa menos para manter, transmite essa vantagem para a próxima geração e aumenta o valor genético do rebanho como um todo, enquanto uma matriz ineficiente faz o caminho inverso e muitas vezes sem que o produtor perceba, porque o custo se dilui ao longo dos anos. 

Se o seu rebanho já realiza provas de Eficiência Alimentar com machos, o próximo passo está claro. E se ainda não começou, esse é um bom motivo para começar por ambos os sexos, ou quem sabe, pelas fêmeas! 

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